Observava as costas da Dona Maria enquanto ela desaparecia no escritório, a porta pesada a fechar-se com um som que parecia terrivelmente final. O silêncio que se instalou foi mais espesso desta vez, mais opressivo.
Ficou apenas eu.
O Sr. Carlos, o porteiro noturno, saiu um momento depois, empurrando o grande caixote do lixo rangente. Acenou-me com um gesto triste, e eu tentei retribuir, mas o braço pesava como chumbo. Ele saiu pela porta lateral, e ouvi o tilintar da chave a trancar do lado de fora.
Eu era oficialmente a última pessoa na Escola Básica de Campo Grande, além da simpática funcionária que tentava encontrar alguém—qualquer um—que se lembrasse da minha existência.
Dobrei os joelhos contra o peito, abraçando-os. O banco de metal já estava frio, o calor do dia desaparecido, substituído por uma brisa fresca que cheirava a poeira e escape de carros. As sombras, antes alongadas e assustadoras, eram agora apenas escuridão. O recreio era um mar de negro, iluminado apenas pelo círculo pálido da lâmpada acima de mim.
Puxei a mochila para o colo, atrapalhando-me com o fecho. Os dedos estavam gelados. Tirei a foto. Estava dobrada num quadrado grosso, as marcas já brancas de tanto a abrir e fechar.
Era do churrasco de despedida do meu pai, há três meses.
O meu pai, o Miguel, estava ali alto no seu uniforme do exército, o sorriso tão grande que lhe fazia os olhos apertarem. O braço pousado sobre os ombros do Tio Zé, ainda mais alto e largo do que ele. O Zé também sorria, um sorriso enorme na barba preta e espessa. Do outro lado do meu pai, o Tio Osso, magro e sério, mas conseguia ver-lhe o sorriso nos olhos. Atrás deles, mais vinte homens, todos com os coletes de couro, abraçados, em frente a uma fila de motas negras e reluzentes.
Pareciam durões. Mas lembrava-me daquele dia.
Lembrava-me do Tio Zé a colocar-me na mota do meu pai, as suas mãos calejadas tão suaves a segurarem-me. “És natural, menina,” dissera ele, a voz rouca como pedras a rolar. Lembrava-me do Tio Osso a ensinar-me um aperto de mão secreto, e do Tio Serpe a mostrar-me a águia pintada no depósito.
Eles eram a família do meu pai. E ele fizera-os prometer. “Tomem conta da minha menina,” dissera ele, a voz grossa.
“Como se fosse nossa, irmão,” prometera o Zé, abraçando o meu pai com tanta força que o levantou do chão. “Faz o que tens a fazer. Nós tomamos conta dela.”
Apertei a foto. E se se tivessem esquecido? A Sandra esquecia-se. Ela também prometera. Até de mindinho. E se o Tio Zé se tivesse esquecido? E se ouvisse a Dona Maria e dissesse apenas, “Quem?”
A barriga doía. Estava com fome, mas era mais do que isso. Era um vazio frio. A sensação de ser esquecida.
A porta do escritório abriu-se, fazendo-me sobressaltar.
A Dona Maria estava na entrada, o rosto iluminado pela luz do escritório. Não conseguia perceber a sua expressão. O coração deu um salto doloroso.
“Carolina,” disse ela, a voz suave.
Não consegui falar. Só a olhei, preparando-me. Preparando-me para ouvir: “Bem, querida, ninguém atendeu. Vamos ter de ligar à Segurança Social.”
Ela aproximou-se e ajoelhou à minha frente, mesmo no cimento frio. Os joelhos estalaram. Respirou fundo. O rosto já não estava triste. Nem preocupado. Era… outra coisa. Algo que eu não sabia nomear.
“Carolina,” repetiu. “Ok. Eu… contactei alguém.”
O fôlego travou-me na garganta.
“Um homem chamado Zé?”
O mundo, que antes parecia cinzento e frio, explodiu em cor.
“Tio Zé?” soltei, o nome a saltar-me como um balão.
Um sorriso pequeno e trémulo apareceu nos lábios da Dona Maria. “Acho que sim. Ele pareceu… muito preocupado, querida. Muito… hm… decidido.”
Parecia procurar a palavra certa.
“Quando lhe disse o teu nome e que estavas sozinha, houve… uma pausa longa. E depois, muito claramente, ele disse: ‘Estamos a caminho. Não a deixes sair da tua vista. Chegamos em quinze minutos.'”
Quinze minutos.
“Ele… lembrou-se de mim?” sussurrei, as lágrimas a turvarem a luz amarela sobre a sua cabeça.
“Oh, querida,” disse ela, a voz agora grossa. “Ele sabia exatamente quem tu eras. Perguntou se te magoaste. Perguntou se ela te magoou. Ele… parecia muito zangado, Carolina. Mas não contigo. De todo. Disse: ‘Diz à minha menina que os tios estão a chegar.'”
Menina.
O nome que o meu pai me dava. O nome que lhes ensinara.
Não me tinham esquecido. Não me tinham esquecido. Eu era a menina.
O alívio foi tão grande que me tirou o ar. Soltei um soluço que nem sabia que estava a segurar, e atirei-me para os braços da Dona Maria. Ela abraçou-me com força, a mão a acariciar-me as costas.
“Eles estão a chegar, querida,” murmurou-me no cabelo. “Estão a chegar.”
Esperámos. Os quinze minutos pareceram uma hora. A Dona Maria deu-me as últimas fatias de maçã e uma barra de cereais que encontrou na gaveta. O açúcar fez as mãos pararem de tremer.
Sentámo-nos juntas no banco, sob a luz fraca.
“Dona Maria?” perguntei, a voz pequena.
“Sim, querida?”
“Porque… porque é que a Sandra se esquece de mim? É por minha causa?”
Ela afastou-se para me olhar nos olhos, a expressão firme. “Oh, não. Não, Carolina. Nunca. Isto não é, e nunca vai ser, culpa tua.” Ajeitou-me o cabelo. “Às vezes… os adultos perdem-se, querida. Ficam presos nos seus problemas e esquecem-se do que é importante. É uma falha deles, não tua.”
Tentei entender. Mas só sabia que o homem mais importante da minha vida estava do outro lado do mundo, e a pessoa que devia substituí-lo… não o fazia.
E depois ouvi-o.
Primeiro, foi apenas uma vibração. No banco de metal debaixo de mim. Zummm…
“O que é isso?” perguntou a Dona Maria, olhando em volta.
Levantei-me. Conseguia senti-lo nos pés, a vir pelo cimento. Um zumbido baixo e distante. Como abelhas. Muitas abelhas.
Tornou-se mais alto.
O zumbido tornou-se um rugido. Um rugido profundo, que fazia vibrar o peito. RRRRRUUUMMMM.
Conhecia aquele som. Conhecia-o na alma. Era o som dos churrascos do meu pai. Era o som da segurança.
“São eles,” sussurrei, os olhos arregalados, a olhar para a rua escura.
O rugido tornou-se um trovão. Já não era só um som, enchia o ar. Ecoava nas paredes da escola, tão alto que o sentia nos dentes. Não era uma mota. Nem duas. Eram muitas.
“São eles!” gritei, desta vez sem sussurrar.E naquela noite, enquanto o último ruído das motas se dissipava na escuridão, senti pela primeira vez que pertencia a um lugar—que pertencia a esta família, barulhenta e cheia de couro, mas também cheia de amor.