Menina no mercado agarra meu braço tatuado e sussurra: ‘Papai quer matar a mamãe’

6 min de leitura

A menina no Continente agarrou o meu braço tatuado e sussurrou: “O papá quer matar a mamã” antes mesmo que eu visse quem a seguia.

Sou um motard de sessenta e três anos, cheio de tatuagens e cicatrizes, e já vi muita coisa na vida. A guerra colonial. Brigas de bar. Amigos que morreram na estrada. Mas nada me preparou para o terror puro nos olhos daquela menina de seis anos quando ela se agarrou ao meu colete no corredor dos cereais.

“Por favor, senhor,” sussurrou, pressionando-se contra a minha perna. “Finge que és o meu pai. Não deixes que ele me leve.”

Olhei para baixo e vi aquela criatura pequena, de cabelo castanho desgrenhado e hematomas nos braços. Depois olhei para cima e vi-o. Um homem nos seus trinta e poucos anos. De cara vermelha. Suado. A olhar os corredores como um predador à procura de presa.

“Beatriz!” gritou ele. “Beatriz Sofia, vem cá já!”

A menina—Beatriz—começou a tremer tanto que eu sentia através do meu jeans. “É o meu pai,” sussurrou. “Mas já não age como ele. Ele magoou a mamã. Havia tanto sangue.”

O meu sangue gelou.

“Quão grave?” perguntei baixinho, agachando para ficar à altura dela enquanto não tirava os olhos do homem, que se aproximava.

“Ela não se mexe mais,” disse Beatriz, quase sem voz. “Está no chão da cozinha, e há sangue por todo o lado. O papá disse que se eu contasse a alguém, ele fazia-me dormir para sempre também.”

O homem avistou-nos. Os olhos dele fixaram-se em Beatriz. Depois em mim. Vi o cálculo na cabeça dele. A tentar decidir se me podia enfrentar. A perguntar-se se valia a pena arriscar agarrar a filha e fugir.

Ergui-me devagar. Com os meus um metro e noventa e cem quilos. Deixei-o ver o colete. Deixei-o ver os emblemas. Deixei-o ver as cicatrizes nos meus nós dos dedos de quarenta anos de lutas.

Deixei-o perceber que teria de passar por mim para chegar a esta criança.

“Beatriz, querida, vem cá,” disse o homem, com uma voz forçada, falsamente calma. “O pai esteve à tua procura. Precisamos de ir para casa ver a mãe.”

A mão de Beatriz apertou o meu colete. “Não,” sussurrou. “Não, não, não.”

Coloquei a mão na cabeça dela. Suave. Protetor. “Ela está bem onde está,” disse ao homem. A minha voz não era suave. “Talvez devêssemos chamar alguém para ver a mãe. Certificar-mo-nos de que está tudo bem.”

A expressão do homem mudou. A falsa calma desapareceu. “Essa é a minha filha. Dá-ma já ou chamo a polícia.”

“Boa ideia,” disse eu. “Vamos chamar a polícia. Agora mesmo.”

Puxei o telemóvel com uma mão enquanto mantinha a outra na cabeça de Beatriz. Os olhos dele saltaram para o telefone. Depois para mim. E depois para ela.

“Beatriz, vou contar até três—”

“Não vais contar nada,” cortei, com voz de aço. “Vais ficar aí enquanto eu ligo para o 112. E se deres um passo em direção a esta menina, vais descobrir o que acontece quando ameaças uma criança à frente de um motard velho que já não tem nada a perder.”

Outros clientes começaram a parar. A olhar. Um empregado aproximou-se. O homem viu a plateia a formar-se.

E fugiu.

Virou-se e disparou para a saída como o cobarde que era. O empregado, um rapaz de vinte anos, ia atrás dele, mas gritei: “Deixa-o ir! Liga para o 112! Diz que há violência doméstica e possível homicídio na—” Olhei para Beatriz. “Querida, qual é a tua morada?”

Beatriz recitou a morada entre lágrimas. “Rua das Flores, 1247. A casa amarela com o portão partido.”

O empregado já estava ao telefone com a emergência. Outros clientes juntaram-se, oferecendo ajuda. Uma mulher deu o casaco a Beatriz, que tremia violentamente.

Ajoelhei-me outra vez. “Beatriz, querida, a polícia está a chegar. Vão ver a tua mãe. E vão encontrar o teu pai. Estás segura agora. Prometo que estás segura.”

“E se ele voltar?” A voz dela era pequena. Partida.

“Então tem de passar por mim primeiro.” Olhei-a nos olhos. “Tenho uma filha. Ela tem trinta e cinco agora. E se alguém lhe tivesse feito mal quando era pequena, eu teria matado essa pessoa com as minhas mãos. Percebes? Vieste ter à pessoa certa. Não vou deixar que te aconteça nada.”

A polícia chegou seis minutos depois. Três viaturas. Luzes a piscar. Enviaram equipas para a morada de Beatriz, enquanto dois agentes ficaram connosco no hipermercado.

“Senhor, pode dizer-nos o que aconteceu?” perguntou a agente.

Contei-lhe tudo. Cada palavra que Beatriz dissera. Cada detalhe. O rosto dela ficou mais pálido a cada frase.

“Beatriz,” disse a agente, ajoelhando-se. “Foste muito, muito corajosa. Podes contar-me o que aconteceu à tua mãe? Quando foi que o teu pai a magoou?”

“Hoje de manhã. Antes do pequeno-almoço. Eles estavam a discutir por causa de dinheiro, e depois o papá agarrou na frigideira e bateu-lhe na cabeça. Ela caiu e não se levantou.” Beatriz chorava agora. “Havia tanto sangue. O papá mandou-me para o quarto, mas ouvi-o ao telefone. Disse que ia levar-me para longe para ninguém nos encontrar.”

O rádio da agente crepitou. “Unidade 47, estamos na Rua das Flores, 1247. Vítima feminina, inconsciente, traumatismo craniano. Os paramédicos estão no local. Está grave.”

“Ela está viva?” perguntou a agente.

Estática. Depois: “Por pouco. Estão a reanimá-la.”

Beatriz ouviu. “A minha mãe está viva?” Olhou para mim com esperança desesperada.

“Está viva, querida.” Eu também chorava. “Está viva e os médicos estão a ajudá-la.”

O rádio crepitou outra vez. “Viatura do suspeito avistada a norte na A9. Unidades em perseguição.”

Apanharam-no vinte minutos depois. Rui Costa, trinta e quatro anos, foi detido e acusado de tentativa de homicídio, perigo para a vida de menor e sequestro. A mulher, Ana, sobreviveu mas passou duas semanas em coma. Tinha o crânio fraturado, hemorragia cerebral e lesão traumática.

Mas sobreviveu.

Passei quatro horas na esquadra a dar o meu depoimento. Beatriz não soltou a minha mão. A CPCJ chegou, mas ela gritou quando tentaram levá-la.

“Por favor,” implorou. “Não deixes que me levem. Quero ficar contigo.”

A técnica, uma senhora de olhos bondosos, olhou para mim. “Tem família? Alguém que possa ficar com a Beatriz temporariamente enquanto a mãe se recupera?”

“A minha mulher faleceu há três anos,” disse eu. “Mas tenho uma filha. E estou reformado. E não tenho cadastro. E esta menina acabou de viver um inferno. Se ela quer ficar com alguém em quem confia, isso não devia contar?”

Com alguma papelada e muitos telefonemas, concederam-me guarda temporária. A minha filha, JoA minha filha Joana veio de Lisboa para ajudar, e juntos demos a Beatriz o amor e segurança que ela tanto precisava, provando que às vezes os heróis não usam capas, mas coletes de couro e corações cheios de coragem.

Leave a Comment