Professor destrói desenho de aluno humilde, e obra vira manchete no dia seguinte

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A sala de artes do Colégio Privado Elite de Lisboa cheirava sempre a óleo importado e a lápis de cedro acabados de afiar. Um aroma fino, limpo, quase arrogante… o tipo de cheiro que, para Tiago Fonseca, o único aluno bolsista da turma, significava uma coisa: dinheiro que não era seu.

Enquanto os colegas abriam estoques italianos que custavam mais que o aluguel do pequeno quarto onde vivia com a mãe, Tiago escondia as mãos debaixo da mesa. Não por vergonha do seu trabalho, mas pelas unhas escuras, marcadas de fuligem. Tentara lavá-las mil vezes, mas o carvão permanecia como um segredo grudado à pele: a marca do fogão a lenha, da frigideira, dos dias em que não sobrava para o gás.

O professor Afonso Barros caminhava entre as filas com a postura rígida e o olhar cortante. Era daqueles mestres que não ensinavam; inspecionavam. E não olhavam a arte: calculavam o preço dos materiais. Para ele, talento não era um dom, era um luxo.

—Tema final: “A essência da alma” —anunciara uma semana antes—. Quero técnica, composição e, acima de tudo, materiais decentes.

E a turma obedeceu. Telas esticadas como tambores, tintas acetinadas, pincéis de pelo macio. Obras com cores que gritavam “eu pertenço aqui”. Tiago, por sua vez, trouxera uma folha de papel pardo, amarelada pelas dobras, e um retrato feito inteiramente com carvão.

Não carvão artístico.

Pedaços queimados que recolhera do fogão onde a mãe preparara o café da manhã.

No desenho estava Dona Leonor Fonseca: o rosto cansado, mas sorridente, as rugas como rios de trabalho, o olhar aceso de quem se recusa a desistir. Tiago traçara cada linha com uma precisão que não vinha da escola, mas do amor. Pusera ali o seu coração, como quem mete a mão no peito e deixa algo vivo sobre o papel.

Quando o professor Barros parou diante da sua mesa, a sala ficou em silêncio. Daquele tipo de silêncio que esmaga.

Barros pegou a folha com dois dedos, como se tocasse algo imundo, contagioso. Ergueu-a para que todos vissem… mas não para elogiar.

—O que é isto, Tiago? —perguntou com um sorriso de escárnio—. Pedi arte, não imundície. Achas que podes vir à minha aula, desperdiçar o meu tempo e insultar-me com restos de lixo queimado?

Uma risada nervosa ecoou. Logo outra.

Tiago sentiu os olhos queimarem. Mordeu o lábio para não chorar. Não queria dar-lhes esse gosto. Não ali.

—É… é a minha mãe, professor —sussurrou—. Não tive dinheiro para lápis… mas usei o que tinha para mostrar a sua alma.

Barros soltou uma gargalhada seca, cruel.

—Alma? Só vejo sujidade. Isto mancha os dedos. Isto não é técnica, é desleixo. Gente como tu acha que a arte é desordem, mas a arte exige investimento, classe e requinte… coisas que claramente te faltam.

Tiago sentiu o mundo desabar. Os olhos de todos trespassavam-no. Uns com pena, outros com diversão.

E então Barros fez o pior.

Lento. Deliberado. Para doer mais.

Rasgou o desenho em dois.

Depois em quatro.

Depois em oito.

Os pedaços caíram sobre a mesa como confetes de tristeza.

—Refazes isto com materiais decentes ou chumbas. E agora… limpa esta porcaria e sai da minha sala.

As mãos de Tiago tremeram enquanto recolhia os destroços. Não conseguia respirar. Sentiu que lhe tinham arrancado mais que papel. Como se tivessem rasgado o rosto da mãe de verdade.

Saiu a correr sem olhar para trás. Lá fora, o ar cheirava a relva molhada e a carros caros. Andou até à pracinha em frente à escola, deixou-se cair no passeio e, chorando, tentou juntar os fragmentos como se pudesse remendar o coração.

Mas o vento —duro, como se também soubesse humilhar— arrancou-lhe um pedaço da mão. Rolou pelo chão, girou, e parou justo diante de um sapato de salto alto.

Uma mulher agachou-se.

Vestia um casaco bege impecável, óculos escuros e uma mala que parecia pesar mais pela autoridade que pelo couro. Apanhou o papel com cuidado e, ao vê-lo, ficou imóvel.

Era só um fragmento: o olho da mãe de Tiago.

Um olho feito de carvão rude, imperfeito… e ainda assim cheio de vida. Havia dor. Havia ternura. Havia verdade.

A mulher ergueu o olhar para o rapaz que chorava.

—Foste tu… que fizeste isto? —perguntou, com voz suave mas firme.

Tiago limpou o rosto com a manga, envergonhado.

—Sim… mas… já não importa —murmurou—. Já o rasgaram.

A mulher sentou-se a seu lado, sem ligar ao chão.

—Importa —disse—. Muito.

Tirou os óculos. Os olhos brilhavam com algo próximo à indignação.

—Sou Catarina Neves —acrescentou—. Crítica de arte e editora cultural do Diário Nacional.

Tiago olhou para ela como se tivesse dito que era astronauta.

—O que… o que faz aqui?

Catarina não respondeu. Tirou fita-cola da mala —como se o mundo estivesse sempre pronto a rasgar coisas e ela, a repará-las— e pediu-lhe os outros pedaços. Tiago entregou-os com as mãos trémulas.

Ali, no passeio, sob o sol, Catarina montou o retrato como um puzzle ferido. As cicatrizes do papel ficaram visíveis, como veias.

Depois tirou uma foto com o telemóvel, tão precisa que Tiago teve medo de o desenho, finalmente visto, se desfazer.

Catarina guardou-o com cuidado.

E fez-lhe uma pergunta.

—Quem fez isto? Quem o rasgou?

Tiago engoliu em seco. Hesitou. Dizer aquilo era desafiar um gigante. Mas o gigante já o esmagara. O que mais poderia perder?

—O professor Barros —disse por fim—. Chamou-lhe lixo.

Catarina apertou os lábios.

—Não é lixo —sussurrou—. É a coisa mais honesta que vi em anos.

Naquela noite, Tiago chegou a casa com os olhos inchados. Dona Leonor esperava-o com um prato de feijão e pão. Quando viu a sua cara, preocupou-se.

—Que aconteceu, meu filho?

Tiago quis mentir. Quis dizer “nada”. Mas a voz quebrou-se-lhe.

—Rasgaram-me o desenho… aquele que fiz de ti.

Dona Leonor abraçou-o forte, com mãos calejadas.

—O papel rasga-se, filho —disse-lhe ao ouvido—. Mas o que tu és… isso ninguém o rasga.

Tiago não dormiu. O peito pesava-lhe, como se a fuligem lhe tivesse entrado na alma.

Na manhã seguinte, o professor Barros entrou na sala com a arrogância habitual, trazendo um jornal debaixo do braço. Parecia satisfeito, como se a sua crueldade fizesse parte da disciplina.

—Hoje falaremos de uma exposição em Paris —começou, e parou.

Algo estava diferente.

A sala estava em silêncio. Mas não era o silêncio de sempre. Era um silêncio carregado, expectante. Todos olOlharam para o professor… e depois para Tiago, cujo desenho rasgado agora estampava a capa do jornal, com a manchete: **”A OBRA QUE O ELITISMO TENTOU DESTRUIR: UM TALENTO QUE NASCERIA QUEIMADO, MAS NINGUÉM APAGOU.”** e o professor Barros, pálido, percebeu que as cicatrizes no papel eram também as marcas da sua própria ruína.

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