Menino Doente e Seu Limonada: A Surpresa Que Comoveu os Motociclistas

6 min de leitura

O barraquinha de limonada do menino doente ficou vazia até que motoqueiros viram o que realmente estava escrito no cartaz, por baixo de “50 cêntimos”.

João, de sete anos, sentou-se atrás da sua mesinha dobrável por três horas sem um único cliente, a cabeça careca coberta por um boné amarelo, as mãos magrinhas tremendo enquanto arrumava os copos vez após vez.

O bairro vinha evitando-o há semanas, desde que se espalhou a notícia de que o seu cancro era terminal.

Eu observava da minha varanda enquanto carros desaceleravam, viam-no e aceleravam de novo. Pais com crianças atravessavam a rua para não passar perto da barraquinha.

Uma mãe chegou a tapar os olhos do filho enquanto passavam apressados, como se o cancro fosse contagioso. Como se olhar para uma criança à beira da morte lhes trouxesse má sorte.

João não chorou. Ficou ali sentado, com a camisola amarela a pairar sobre o seu corpo franzino, à espera. O seu pote de vidro continuava vazio. O sorriso não falhava, embora eu visse o lábio inferior a tremer.

Então, começou o rugido. Baixo e profundo, como um trovão a aproximar-se. A cabeça de João ergueu-se num salto. Os olhos arregalaram-se. Quatro motoqueiros em Harleys vinham pela rua pacata do subúrbio, os coletes de couro a brilhar ao sol da tarde.

Os vizinhos começaram a puxar as crianças para dentro. A Dona Maria até correu para fechar a porta, como se estivéssemos sob ataque. Mas João levantou-se. Pela primeira vez em três horas, levantou-se.

O líder do grupo, um homem enorme com uma barba grisalha até ao peito, parou mesmo em frente à barraquinha.

Tirou o capacete e foi então que viu. O pequeno bilhete que João tinha colado sob o cartaz do preço. O verdadeiro motivo por que ali estava sentado.

A expressão do motoqueiro mudou por completo. Virou-se para os outros e disse algo que eu não ouvi. Os quatro desligaram as motas.

“Olá, pequeno guerreiro”, disse o líder, aproximando-se. “Quanto custa um copo de limonada?”

A voz de João mal se ouvia. “Cinquenta cêntimos, senhor. Mas…” Apontou para o bilhete.

O motoqueiro ajoelhou-se para ler. Vi os seus ombros a tremer. Aquele homem de aparência intimidante, que devia pesar 150 quilos, chorava ao ler o que João tinha escrito.

O bilhete dizia: “Não estou a vender limonada. Estou a vender memórias. A minha mãe precisa de dinheiro para o meu funeral, mas ela não sabe que eu sei. Por favor, ajudem-me a ajudá-la antes de eu partir. – João, 7 anos”.

O motoqueiro levantou-se devagar, tirou a carteira e colocou uma nota de 100 euros no pote. “Quero vinte copos, meu irmãozinho. Mas só vou beber um. Os outros são para os meus companheiros.”

Os olhos de João encheram-se de lágrimas. “O senhor não precisa—”

“Preciso, sim”, a voz do motoqueiro embargou-se. “Como te chamas, guerreiro?”

“João. João Sousa.”

“Bem, João Sousa, o meu nome é Urso. Estes são os meus irmãos — Gasóleo, Tanque e Padre. Somos do Clube de Motas Os Falcões. Todos veteranos. E reconhecemos um guerreiro quando vemos um.”

O rostinho de João iluminou-se. “Foram soldados?”

“Fuzileiros”, corrigiu Urso, com delicadeza. “E tu estás a travar uma batalha mais difícil que qualquer uma que tenhamos enfrentado. É preciso muita coragem para fazeres o que estás a fazer.”

Foi então que a mãe de João, a Ana, saiu a correr de casa. “João! O que estás a—” Parou ao ver os motoqueiros. O medo surgiu-lhe no rosto.

“Minha senhora”, disse Urso, tirando os óculos escuros. “O seu filho é alguém especial. Ele está aqui a tentar cuidar de si enquanto está…”, não conseguiu terminar, “enquanto está doente.”

O rosto da Ana desfez-se. “João, meu amor, não tens de te preocupar com dinheiro. Isso não é tarefa tua.”

“Mamã”, sussurrou João, “ouvi-te a chorar ao telefone. Disseste à avó que não tinhas dinheiro para… para depois. Eu queria ajudar.”

Vi a Ana desabar numa cadeira de jardim do vizinho, soluçando. Urso ajoelhou-se ao seu lado. “Minha senhora, quanto tempo é que ele tem?”

“Seis semanas”, murmurou. “Talvez menos. Os tumores já estão no cérebro. Os médicos disseram que não há mais nada a fazer.”

Urso levantou-se e pegou no telemóvel. “Gasóleo, liga aos irmãos. Todos. Diz-lhes que temos uma situação. Um pequeno guerreiro precisa de nós.”

Em uma hora, havia quarenta e sete motoqueiros na nossa rua. Cada um aproximou-se da barraquinha, leu o bilhete e deixou dinheiro no pote. Uns deixaram vinte euros, outros cem. Um deles, um homem mais velho com emblemas da guerra colonial, colocou quinhentos euros e não conseguiu falar, as lágrimas a rolarem-lhe pela cara.

João tentou servir a limonada, mas as mãos tremiam-lhe demasiado. Urso pegou no jarro. “Deixa-me ajudar, mano. Tu dás as ordens, eu sirvo.”

“Porque são todos tão bons para mim?”, perguntou João.

Tanque, um motoqueiro com os braços cobertos de tatuagens militares, ajoelhou-se. “Porque tu lembras-nos por que lutámos, pequeno. Lutámos por crianças como tu. Crianças que não deviam enfrentar batalhas tão grandes. Crianças que merecem mais do que a vida lhes deu.”

Padre, que tinha uma cruz no colete, falou: “E porque cuidamos uns dos outros. Tu estás a cuidar da tua mãe. Nós estamos a cuidar de ti. É assim que funciona.”

Os motoqueiros ficaram três horas. Beberam limonada, contaram histórias sobre as suas motas, deixaram João sentar-se nelas, tiraram fotografias com ele, deram-lhe emblemas dos seus coletes.

Mas, mais importante, fizeram um plano.

Urso chamou a Ana de lado. “Minha senhora, vamos ajudar. O nosso clube tem um fundo para estas situações. Já arrecadámos dinheiro para as despesas médicas, mas não sabíamos… das outras.”

“Não posso aceitar—”

“Pode, sim. E vai. O João está a tentar ser um homem, a tentar cuidar de si. Deixe-nos ajudá-lo nisso. Deixe-o ver que o esforço dele valeu a pena.”

Nas cinco semanas seguintes, o Clube Os Falcões transformou a barraquinha de limonada num evento. Todos os sábados, apareciam. Traziam amigos, outros clubes, grupos de veteranos. O pote de João foi substituído por um enorme frasco de pickles, depois por um balde de cinco litros.

A notícia espalhou-se: “Barraquinha de Limonada de Menino Doente Arrecada Milhares com Ajuda de Motoqueiros”.

João foi ficando mais fraco. Na quarta semana, já não conseguia estar de pé. Urso fez-lhe uma cadeira especial com almofadas e um chapéu-de-sol. Na quinta semana, João mal conseguia permanecer acordado. Os motoqueiros sentavam-se com ele, segurando o chapéu-de-sol, servindo limonada enquanto ele cochilava.

No último sábado em que João conseguiu sair, mais de duzentos motoqueiros apareOs motoqueiros continuaram a honrar a memória de João todos os anos, provando que um simples copo de limonada pode unir corações e mudar vidas.

Leave a Comment