Ela Deixou Meu Filho no Frio para ‘Dar Uma Lição’ – E Descobri Um Plano que Quase Arruinou Minha Família

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**Diário Pessoal**

**Capítulo 1: O Grito ao Anoitecer**

O negócio em Lisboa tinha ruído ao meio-dia. Um desastre—milhões de euros evaporados em segundos—mas, enquanto conduzia o meu Mercedes preto pelas ruas tranquilas do meu bairro arborizado, não pensava no dinheiro.

Pensava na minha falecida esposa, Leonor. Pensava na promessa que lhe fizera de cuidar dos nossos filhos, e em como, nos últimos dezoito meses, me enterrara no trabalho para fugir ao silêncio ensurdecedor de uma casa sem ela.

Decidi regressar mais cedo. Uma surpresa. Levaria a Matilde, de oito anos, e o Tomás, de dezoito meses, ao parque antes do jantar. Seria o pai que prometi ser.

Dobrei a esquina em direção à nossa rua, o sol a desaparecer no horizonte, lançando sombras alongadas no passeio.

Foi então que a vi.

Uma figura pequena corria desesperada pela calçada, os movimentos bruscos, desiguais. Vestia um vestido de verão num dia gelado. Nem casaco, nem sapatos.

Abrandei o carro, franzindo a testa. A figura tropeçou, ergueu-se e continuou a correr, gritando para as luzes traseiras de um carro que se afastava a alta velocidade.

O meu coração bateu com força contra as costelas. Acelerei, parei ao lado da menina e baixei o vidro.

“Matilde?”

Ela virou-se. O rosto era uma máscara de terror, sujo de lama e lágrimas. Quando me viu, os joelhos falharam-lhe.

“Pai!” O grito não era um cumprimento; era um pedido de salvação. “Pai, ela deixou-o! Ela deixou o Tomás!”

Estacionei a meio da rua e saí a correr. A Matilde colou-se às minhas pernas, agarrando-se às calpas do meu fato, o corpo todo a tremer.

“Quem o deixou? Onde está ele?” perguntei, segurando-lhe os ombros.

“A Inês!” soluçou, ofegante. “Ela disse que ele chorava demais. Que precisava de uma pausa. Ela… deixou-o no banco e mandou-me ir a pé para casa, e depois foi-se embora! Pai, ele está sozinho!”

*Ele é só um bebé.*

O mundo reduziu-se a um túnel. Peguei na Matilde—era assustadoramente leve—e corri para a entrada do parque do outro lado da rua.

“Onde?” gritei.

“No lago! No banco junto ao lago!”

Corri para lá, ultrapassando os baloiços vazios, o escorregador silencioso. O parque estava deserto. O crepúsculo transformava-se em noite.

E então ouvi-o. Um choro fraco, exausto.

Vi-o. Um embrulho pequeno num banco de metal. O Tomás.

Tinha chutado o cobertor para longe. Estava ali, exposto ao vento cortante, o rosto vermelho e molhado, as mãozinhas a agarrar o ar vazio.

Cheguei num instante, agarrei-o e apertei-o contra o peito. Estava gelado. A pele parecia gelo através do body.

“Estou aqui,” murmurei, enterrando o rosto na nuca dele, a voz a quebrar. “O pai está aqui.”

Sentei-me no banco, abraçando os meus dois filhos enquanto a temperatura caía, sentindo algo dentro de mim partir-se—e depois reformar-se em algo mais duro que o aço.

“Matilde,” disse, tentando manter a voz calma. “Há quanto tempo?”

“Não sei,” sussurrou, encostando-se a mim, a tremer. “Talvez dez minutos? Ela disse-me que, se não parasse de chorar, também me deixava. Disse que lhe estávamos a estragar a cabeça.”

Olhei para a minha filha. *A sério* olhei. As faces magras. Os olhos fundos, cercados por olheiras que não deviam existir num rosto de oito anos.

“Quando foi a última vez que comeste?” perguntei.

Ela hesitou, baixando o olhar para os pés descalços. “O pequeno-almoço… acho.”

“O pequeno-almoço?” O estômago revirou-se. “Matilde, são seis da tarde.”

“A Inês diz que eu preciso de emagrecer,” murmurou, repetindo palavras que claramente não eram dela. “Diz que estou a ficar rechonchuda como a mãe. Diz que a mãe morreu porque era fraca e doente, e que se eu quiser viver, tenho de aprender a controlar-me.”

“Controlar-te.”

A palavra pairou no ar frio, vil, obscena.

“Ela diz que somos um peso,” continuou a Matilde, a voz agora sem emoção, como um robô. “Âncoras. Erros. Diz que, quando mudares o testamento, ela vai arranjar ‘soluções permanentes.'”

Eu levantei-me.

“Vamos para casa,” disse. “E ninguém vos vai magoar outra vez.”

**Capítulo 2: O Monstro na Cozinha**

A viagem de volta ao apartamento foi silenciosa. O aquecimento estava no máximo, mas não parava de tremer.

Peguei no telemóvel e abri a aplicação de segurança. Havia câmaras em todas as divisões, instaladas há dois anos—câmaras que a Inês conhecia. Nunca as verifiquei. Confiei nela. Fiquei grato por uma mulher bela, mais nova, ter querido assumir um viúvo com dois filhos.

Meu Deus, fui tão cego.

Retrocedi para as quatro da tarde. As imagens carregaram.

Lá estava a Inês na cozinha, a servir um copo de vinho. O Tomás estava no parque, chorando. Ela aproximou-se, não para o pegar ao colo, mas para dar um pontapé no cercado tão forte que este escorregou no mármore.

“Cala-te!” gritou para a câmara.

Depois, a Matilde apareceu. A Inês agarrou-a pelo braço, ergueu-a com tanta força que os pés da miúda saíram do chão, e empurrou-a para a porta.

Desliguei o telemóvel. Já tinha visto o suficiente.

Pegámos no elevador privado. As portas abriram-se diretamente para a entrada.

“Matilde,” sussurrei, entregando-lhe o irmão adormecido. “Leva o Tomás para o teu quarto. Tranca a porta. Não saias até eu dizer o meu nome e garantir que está seguro. Entendeste?”

Ela anuiu, os olhos arregalados, e desapareceu no corredor. Ouvi a fechadura a dar.

Entrei na cozinha.

A Inês estava lá. De pé, ao lado do balcão, o telemóvel no ouvido, a rir.

“Ricardo, eu sei,” dizia. “Ligo depois. Ele pode chegar a qualquer momento.”

Desligou e virou-se. Quando me viu, a expressão transformou-se instantaneamente. O sorriso falso e arrogante desapareceu, substituído por um brilho de amor e encanto.

“Gonçalo! Querido!” Abriu os braços. “Chegas-te mais cedo! Que surpresa maravilhosa. Estava a começar a preparar o jantar.”

Não me mexi. “Onde estão as crianças, Inês?”

Ela não vacilou. “Ah, estão nos quartos. Levei-os ao parque para apanhar ar fresco e ficaram exaustos. Adormeceram logo.”

“Levaste-os ao parque,” repeti.

“Sim, divertimo-nos muito.” Inclinou a cabeça, fingindo preocupação. “Amor, está tudo bem? Estás pálido.”

“Encontrei-os no parque,” disse, a voz plana. “Encontrei o Tomás sozinhoE enquanto os três caminhávamos para casa, sob o céu de Lisboa, finalmente senti o peso dos últimos anos a levantar-se, substituído por uma leveza que só a verdadeira paz pode trazer.

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