Motociclistas Cercam o Lar que Escondia Minha Filha de Mim

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Os motociclistas cercaram a casa de acolhimento onde escondiam a minha filha de mim. Fiquei sentado na minha Harley à frente do grupo, a olhar para a casa onde a minha menina de sete anos tinha estado trancada durante noventa e três dias.

Noventa e três dias desde que a abracei. Noventa e três dias desde que ouvi a sua voz. Noventa e três dias desde que a minha ex-mulher destruiu a minha vida com uma mentira.

A assistente social disse que eu era um perigo para a minha própria filha. Que o meu “estilo de vida de motociclista” me tornava inadequado. Que a minha filha tinha medo de mim. Que eu não podia vê-la até a investigação estar concluída.

Uma investigação sobre acusações que nunca aconteceram. Maus-tratos que nunca existiram. Violência que só existia na declaração jurada da minha ex-mulher ao tribunal.

Chamo-me Rui Matias. Tenho cinquenta e quatro anos. Ando de mota há trinta e um. Fiz duas missões no Iraque. Nunca levantei a mão a ninguém que não o merecesse, e garanto que nunca toquei na minha filha sem ser com amor.

Mas nada disso importou quando a Carla decidiu que queria a guarda total. Quando quis apagar-me. Quando entrou no tribunal de família e disse ao juiz que eu batia na nossa princesa.

A Leonor foi levada da escola pela Segurança Social numa terça-feira à tarde. Eu estava no trabalho quando aconteceu. Quando recebi a chamada, ela já estava num lar de emergência. Quando cheguei às instalações, disseram-me que não podia saber onde ela estava.

“Para a proteção dela”, disse a assistente social. Uma mulher chamada Patrícia, com olhos frios e uma voz ainda mais gélida. “Até concluirmos a investigação, não tem permissão para contacto.”

“Protegê-la do quê? Nunca lhe fiz mal!”

“Senhor, temos uma declaração jurada da mãe da criança. Temos de levar estas acusações a sério.”

“A Carla está a mentir! Ameaçou fazer isto durante meses! Disse que se eu não lhe desse a casa, ia garantir que nunca mais via a Leonor!”

A expressão da Patrícia não mudou. “Isso cabe aos tribunais decidirem.”

Contratei um advogado. Um bom. Caro. Não adiantou. O sistema movia-se como melaço. Audiências de emergência eram adiadas. Provas “desapareciam”. A advogada da minha ex-mulher apresentava recurso após recurso, atraso após atraso.

E entretanto, a minha filha estava algures no sistema de acolhimento, provavelmente aterrorizada, a perguntar porque é que o pai não a vinha buscar.

Tentei tudo. Liguei para todos os números. Preenchi todos os documentos. Apareci em todos os gabinetes. Ninguém me ajudou.

“Isto leva tempo”, dizia o advogado.

“A minha filha não tem tempo! Tem sete anos e acha que a abandonei!”

“Rui, entendo a tua frustração—”

“Não entendes nada.”

Deixei de dormir. Deixei de comer. Só me importava uma coisa: trazer a Leonor para casa.

Os meus irmãos do clube repararam. Claro que repararam. Andávamos juntos há quinze anos. Conheciam-me melhor que ninguém.

O Tiago, o nosso presidente, apareceu no meu apartamento uma noite. Encontrou-me às escuras, a olhar para fotos da Leonor no telemóvel.

“Irmão, fala comigo.”

E contei-lhe tudo. As mentiras. A investigação. O pesadelo burocrático sem fim. Como não via a minha filha há quase três meses e ninguém me dizia se ela estava bem.

O Tiago ouviu sem interromper. Quando terminei, ficou em silêncio por um longo momento.

“Sabes onde ela está?”

“Descobri na semana passada. Uma casa de acolhimento na Rua do Carvalho. Passei por lá, mas não pude parar. Se violar a ordem do tribunal, perco qualquer chance de a trazer de volta.”

“Então tens de seguir as regras.”

“As regras estão quebradas, Tiago. As regras foram feitas para afastar os pais dos filhos.”

O Tiago acenou devagar. “As regras dizem que não te podes aproximar daquela casa. Mas não dizem nada sobre os teus irmãos.”

Só percebi o que ele queria dizer três dias depois.

O Tiago ligou-me às 17h. “Aparece na sede do clube daqui a uma hora. De equipamento completo. Vamos dar um passeio.”

Quando cheguei à sede, não acreditei no que vi. Quarenta motas. Quarenta irmãos. Alguns tinham vindo de quatro horas de distância. A palavra espalhara-se na comunidade de motociclistas veteranos como fogo.

“O que é isto?”

O Tiago pôs a mão no meu ombro. “Isto é família, irmão. Família a sério. A que aparece.”

O Marco, o nosso vice-presidente, entregou-me um papel. “Temos o endereço. Temos um plano. Tudo legal. Tudo dentro da lei. Mas vamos fazer algum barulho.”

“Não percebo.”

“Vais perceber.”

Cavalgámos em formação pela cidade. Quarenta Harleys a rugir pelas ruas. As pessoas paravam e olhavam. Os carros encostavam. Era impossível ignorar-nos.

Quando viramos para a Rua do Carvalho, o meu coração disparou. A casa de acolhimento era um modesto sobrado com uma cerca de arame e um pequeno jardim. Havia um carro familiar na entrada e brinquedos espalhados pela relva.

Algures dentro daquela casa estava a minha filha.

O Tiago levantou a mão e todas as motas encostaram. Quarenta motas alinhadas de ambos os lados da rua. Depois, uma a uma, cada motor silenciou.

O silêncio repentino foi quase mais poderoso que o barulho.

Ficámos sentados nas motas. Ninguém se mexeu. Ninguém falou. Apenas esperámos.

Em dez minutos, os vizinhos começaram a sair de casa. Em vinte, alguém chamou a televisão. Em trinta, chegaram duas viaturas da PSP.

Um agente aproximou-se do Tiago. “Senhor, posso perguntar o que estão aqui a fazer?”

“À espera, agente.”

“À espera do quê?”

“De justiça.”

O agente olhou para os quarenta motociclistas alinhados na rua. Para a carrinha da televisão que chegava. Para a multidão de vizinhos a crescer.

“Não estão a bloquear o trânsito. Não estão a invadir propriedade. Mas isto é… invulgar.”

“Temos consciência, agente. Estamos apenas sentados em propriedade pública. Pacificamente. Legalmente.”

O agente coçou a cabeça. “E quanto tempo planeiam esperar?”

O Tiago sorriu. “O tempo que for preciso.”

A mãe de acolhimento saiu de casa. Uma mulher de meia-idade com olhos bondosos e mãos inquietas. Olhou para a muralha de motos e motociclistas e empalideceu.

“O que se passa? Por que estão aqui?”

Queria gritar. Exigir a minha filha. Mas mantive-me na mota. Em silêncio. Deixei o plano desenrolar-se.

O Tiago aproximou-se dela devagar, mãos visíveis, voz calma.

“Senhora, não estamos aqui para causar problemas. Estamos aqui pela menina que está a acolher. A Leonor Matias. O pai dela é do nosso clube. Não vê a filha há três meses por causa de mentiras contadas ao tribunal.”

Os olhos da mulher voltaram-se para mim. “Você é o pai dela?”

Acertei com a cabeça. Não conseguia falar.

“Disseram-nos que ele é perigoso. Que lhe fez mal.”

O Tiago abanou aO Tiago abanou a cabeça. “Senhora, esse homem nunca fez mal a ninguém que não merecesse, é veterano, voluntário dos bombeiros, treinou a equipa de futebol da filha durante três anos – essas acusações são mentiras de uma ex-mulher amarga que queria magoá-lo.”

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