**25 de Março, 2024**
Estava a caminho da estação de comboios quando ouvi um som que me fez parar de repente. O vento cortante de fevereiro soprava forte, levantando a poeira do chão, e foi então que escutei um choro fraco, quase abafado pelo ruído da tempestade que se aproximava.
O som vinha dos trilhos. Virei-me e avistei, perto de uma cabana abandonada, um embrulho escuro. Aproximei-me com cuidado. Era um bebé envolto num cobertor sujo e gasto. Uma mãozinha, vermelha de frio, saía por entre os panos.
“Meu Deus”, saiu-me num sussurro, o coração a bater descontrolado.
Ajoelhei e peguei nela. Uma menina. Não devia ter nem um ano. Os lábios estavam azuis, e o choro era tão fraco que parecia já não ter forças para se queixar. Aproximei-a do peito, abri o meu casaco para a aquecer e corri até à vila, até à casa da única enfermeira, a Dona Isabel.
“Ó Carlos, que trazes aí?” Ela olhou para o pacotinho nos meus braços e soltou um suspiro.
“Encontrei-a nos trilhos. Está quase congelada.”
A enfermeira pegou na criança com cuidado. “Hipotermia, mas está viva. Graças a Deus.”
“Vamos chamar a polícia”, disse, estendendo a mão para o telefone.
Parei-a. “Vão levá-la para um orfanato. Não sobreviverá à viagem.”
A Dona Isabel hesitou, depois abriu um armário. “Toma. Ficou-me um pouco de leite em pó da última vez que a minha neta veio. Chega para agora. Mas, Carlos, o que estás a pensar?”
Olhei para o rostinho pequeno, aconchegado na minha camisola, o calor da sua respiração na minha pele. Ela tinha parado de chorar.
“Vou criá-la”, disse baixinho. “Não há outra solução.”
Os murmúrios começaram logo.
“Ele tem trinta e cinco anos, solteiro, vive sozinho e agora adopta bebés abandonados?”
Que falem. Nunca liguei a mexericos. Com a ajuda de alguns conhecidos na junta de freguesia, tratei dos documentos. Não apareceram familiares. Ninguém procurava uma criança desaparecida.
Chamei-lhe Beatriz.
O primeiro ano foi o mais difícil. Noites sem dormir. Febres. Dentes a nascer. Embalei-a, consolei-a, cantei cantigas que mal me lembrava da minha própria infância.
“Mãe!” disse ela uma manhã, aos dez meses, esticando os bracinhos para mim.
As lágrimas rolaram-me pela face. Depois de tantos anos sozinho, agora eu era pai.
Aos dois anos, era um furacão. Perseguia o gato, puxava as cortinas, fazia mil perguntas. Aos três, já conhecia todas as letras. Aos quatro, contava histórias completas.
“É uma criança prodígio”, dizia a vizinha, a Dona Margarida, abanando a cabeça. “Não sei como consegues.”
“Não sou eu”, sorria. “Deixa-a brilhar como merece.”
Aos cinco, combinei boleias para a levar ao infantário na vila ao lado. As educadoras não acreditavam.
“Ela lê melhor do que crianças de sete anos”, diziam.
Quando entrou na escola, usava tranças compridas, castanhas, com fitas coloridas. Eu prendia-lhas todas as manhãs. Nunca faltei a uma reunião de pais. Os professores elogiavam-na sem parar.
“Carlos, ela é a aluna que todos sonham ter”, disse uma professora. “Tem um futuro brilhante pela frente.”
O meu peito enchia-se de orgulho. A minha filha.
Cresceu numa jovem graciosa e inteligente. Magra, confiante, com olhos azuis cheios de determinação. Ganhava competições de português, matemática, até concursos científicos regionais. Toda a vila conhecia o seu nome.
Uma noite, no décimo ano, disse-me: “Pai, quero ser médica.”
Pisquei os olhos. “Isso é maravilhoso, filha. Mas como pagaremos a universidade? A vida na cidade?”
“Vou conseguir uma bolsa”, os olhos dela brilhavam. “Vou arranjar maneira. Prometo.”
E arranjou.
Quando chegou a carta de admissão na faculdade de medicina, chorei dois dias. Lágrimas de alegria e medo. Era a primeira vez que se afastava de mim.
“Não chores, pai”, disse-me na estação, apertando a minha mão. “Vou visitar-te todos os fins-de-semana.”
Claro que não foi assim. A cidade absorveu-a. Aulas, estágios, exames. Primeiro vinha uma vez por mês. Depois, a cada dois ou três. Mas ligava todas as noites, sem falta.
“Pai! Tirei vinte a anatomia!”
“Pai! Hoje assisti a um parto no estágio!”
Eu sorria sempre, ouvindo as suas histórias.
No terceiro ano, notei hesitação na sua voz.
“Conheci alguém”, disse, tímida.
Chamava-se Tiago. Colega de curso. Trouxe-o no Natal — alto, educado, com olhos bondosos e uma voz calma. Agradeceu pelo jantar e ajudou a limpar a mesa.
“Bom partido”, murmurei à Beatriz na cozinha.
“Achas?” Ela irradiava felicidade. “E não te preocupes, as notas continuam boas.”
Depois da licenciatura, começou a especialização em pediatria.
“Salvaste-me uma vez”, disse. “Agora quero salvar outras crianças.”
As visitas tornaram-se mais raras. Eu entendia. Tinha a sua vida. Mas guardava cada foto, cada história de pacientes.
Até que, numa quinta-feira, o telefone tocou.
“Pai, posso ir amanhã?” A voz dela soou baixa. Tensa. “Preciso de falar contigo.”
O coração apertou-me. “Claro, filha. Está tudo bem?”
No dia seguinte, chegou sozinha. Sem sorriso, sem brilho nos olhos.
“O que aconteceu?” Abracei-a.
Ela sentou-se, entrelaçando as mãos. “Dois pessoas vieram ao hospital à minha procura.”
Franzi a testa. “O quê?”
“Diss”Eles disseram que eram meus tios, que a sobrinha deles desapareceu há 25 anos na linha do comboio, e trouxeram um teste de ADN que prova que sou deles, mas eu só tenho um pai — e és tu.”