Quando o meu marido faleceu de repente, pensei que a maior dor seria perdê-lo. Enganei-me.
Dois dias depois do funeral, a família dele apareceu na nossa casa, a casa que construímos juntos. A mãe dele nem me abraçou nem me deu os pêsames. Em vez disso, olhou-me com frieza e disse: “Devias começar a arrumar as tuas coisas. Esta casa é da nossa família agora.”
Pisquei, confusa. “Do que estás a falar? O Rodrigo e eu comprámos esta casa juntos.”
Ela franziu os lábios. “Com o dinheiro dele. Tu não tinhas nada antes dele. Não penses que vais ficar com o que é nosso.”
Antes que eu pudesse reagir, o irmão e o primo do Rodrigo já andavam pela casa, a desligar eletrodomésticos, a empilhar caixas de joias, até a tirar fotografias das paredes. Toda a minha vida —as nossas memórias— estava a ser encerrada nas caixas deles.
Gritei, chorei, implorei que parassem. Ignoraram-me. “Já não és da família”, disse a mãe dele, seca. “Vais-te embora hoje.”
Ao cair da noite, estava do lado de fora da casa, debaixo de chuva, com apenas uma mala pequena e uma pasta de documentos que agarrei à última hora. O coração partiu-se quando os vi trancar a porta.
Nos dias seguintes, fiquei em casa da minha amiga Beatriz, sem conseguir dormir. O luto virou desespero, o desespero virou raiva. Foi então que a Beatriz chamou o tio, um advogado. “Tens de lutar contra isto”, disse.
Quando o conheci, ele examinou a pasta que salvei da casa. Depois de uns instantes, olhou para mim e falou calmamente: “Dona Filipa, acho que o seu marido lhe deixou algo. Algo que a família dele não sabe.”
Franzi a testa. “Como assim?”
Ele deslizou um papel pela secretária: o testamento do Rodrigo. A versão oficial. E no fim, em negrito, estavam as palavras que me fizeram tremer:
“Todos os bens, propriedades e contas devem ser transferidos exclusivamente para a minha esposa, Filipa Teixeira.”
Afinal, o Rodrigo atualizara o testamento seis meses antes de morrer, mas a família escondera a cópia original e substituíra por uma falsa. Pensaram que eu nunca descobriria.
O meu advogado, o Dr. Lourenço, sorriu enquanto explicava os próximos passos. “Falsificaram documentos, Filipa. Isso é crime. Vamos avançar com o processo.”
Eu estava assustada. Não queria vingança, só queria que a vontade do Rodrigo fosse respeitada. Mas o Dr. Lourenço não recuou. Em dias, a família dele recebeu notificações judiciais. A mãe ligou-me furiosa. “Achas que podes processar-nos, mal-agradecida?”
Respirei fundo, a tremer. “Não estou a processar ninguém”, disse. “Estou a defender o que o Rodrigo queria para mim.”
Uma semana depois, estávamos no tribunal. A família chegou confiante, a cochichar e a rir como se tudo já estivesse decidido. Mas quando o juiz abriu o testamento original —verificado pela assinatura e registro digital do Rodrigo—, a sala ficou em silêncio.
O rosto da mãe dele perdeu a cor. O advogado do irmão tentou protestar, alegando “mal-entendido”, mas o juiz foi firme. “O testamento é claro. Tudo pertence exclusivamente à Dona Filipa Teixeira.”
Não consegui conter as lágrimas. Pela primeira vez em semanas, senti o amor do Rodrigo outra vez, a proteger-me, mesmo depois da morte.
E então veio o golpe final. O Dr. Lourenço levantou-se e entregou outro documento. “Meritíssimo, há uma cláusula que anula a herança de quem tentar fraudar o património.”
Houve murmúrios na sala. O juiz leu em voz alta, confirmando que não receberiam nada, nem um cêntimo.
Quando o martelo bateu, tudo acabou. A justiça foi feita, silenciosa e poderosa.
Fiquei à porta do tribunal, o sol a aquecer o meu rosto. Pela primeira vez desde que o Rodrigo partiu, consegui respirar.
O Dr. Lourenço juntou-se a mim, sorrindo. “Ele devia amar-te muito, Filipa. Poucos homens planejam assim.”
AbanE, enquanto passava os dedos na moldura da nossa última foto juntos, percebi que o amor verdadeiro nunca morre, apenas se transforma em uma força que nos guia mesmo nas horas mais escuras.