Cláudia abriu a porta da sala onde tinha deixado as filhas e paralisou. O bilionário Artur Mendonça, o homem que nunca sorria, estava ajoelhado no chão com um bolo enorme nas mãos, cantando parabéns, desafinado, para as filhas gémeas. As meninas gritavam de alegria e, naquele instante, Cláudia percebeu que algo impossível acontecia ali.
O que ela não sabia era que aquele seria o primeiro passo para um final capaz de mudar todas as vidas para sempre. Cláudia acordava todos os dias às 5 da manhã, café rápido, banho gelado, beijo nas filhas a dormir e saía a correr para apanhar dois autocarros até ao centro do Porto. Era empregada doméstica no escritório de Artur Mendonça, um magnata do mercado financeiro.
Aquele tipo de patrão que mal olha nos olhos, que passa por ti como se fosses invisível? Pois, era ele: frio, distante, sempre de fato impecável e cara fechada. O tipo de homem que respeitas, mas de quem nunca te aproximas.
Cláudia tinha duas filhas gémeas, Leonor e Beatriz, três aninhos, a alegria da sua vida. Todas as manhãs deixava as meninas com a Dona Júlia, a vizinha do segundo andar, que as cuidava por um preço que cabia no bolso. Era apertado, mas dava para sobreviver. Até que, no dia do aniversário das gémeas, Dona Júlia ligou cedo. Estava com febre alta, não podia ficar com as crianças. Cláudia entrou em pânico.
Faltar ao trabalho, perder o dia. Não podia. Precisava daquele emprego mais do que de ar. Então, tomou a decisão mais arriscada da sua vida: levou Leonor e Beatriz, com uma sacola cheia de brinquedos, bolachas e sumo, e escondeu-as no escritório. Ao chegar, correu para uma salinha no fim do corredor, um arquivo onde ninguém ia.
Arrumou uma mesinha, espalhou os brinquedos e sussurrou: “Meninas, vão brincar aqui quietinhas, está bem? A mãe volta já. Nem um barulho, pelo amor de Deus.” As duas acenaram, olhos grandes e obedientes. Cláudia trancou a porta, prendeu a respiração e foi trabalhar. Tudo corria bem. Até que, pelas 3 da tarde, Artur precisou de uns contratos antigos.
E advinhem onde estavam? Na salinha. Ele abriu a porta, entrou decidido e congelou. Duas menininhas idênticas, de vestido vermelho e laço no cabelo, estavam sentadas no chão, rodeadas de bonecas. Olharam para ele com aqueles olhos curiosos, e uma delas, Leonor, levantou-se e perguntou com a voz mais doce do mundo: “Tio, veio para o nosso aniversário?” Artur ficou mudo.
Piscou duas, três vezes. Donde tinham saído aquelas crianças? Mas antes que pudesse pensar, Beatriz já lhe puxava a mão. “Vem brincar connosco, tio. Hoje é o nosso aniversário.” E então aconteceu: aquele homem sério, carrancudo, dono de uma fortuna inimaginável, derreteu.
Sentou-se no chão, pegou numa boneca, fez vozes engraçadas. As meninas riram, ele riu também, um riso que já nem se lembrava de ter. Meia hora depois, Artur saiu da sala, foi até à rececionista e disse: “Quero um bolo de aniversário aqui em 20 minutos e balões cor-de-rosa.” A rececionista quase caiu da cadeira.
“Tem reunião com o conselho.”
“Cancela.”
Quando Cláudia subiu a correr para ver as meninas, quase teve um ataque. Lá estava Artur Mendonça, o bilionário mais temido do Porto, de joelhos no chão, segurando um bolo gigante, rodeado de balões, cantando parabéns desafinado, enquanto Leonor e Beatriz batiam palmas e gritavam de alegria. Cláudia ficou branca.
“Senhor, eu posso explicar.”
Ele levantou-se, limpou as mãos nas calças do fato caríssimo e sorriu. Pela primeira vez em dois anos, Cláudia viu aquele homem sorrir de verdade. “Não precisa explicar nada. Elas são tuas filhas?”
“Sim, senhor. A vizinha adoeceu e não tinha com quem as deixar. Peço desculpa.”
Ele ergueu a mão. “Respira. Está tudo bem. Aliás, se precisares, podes trazê-las sempre. Nós damos um jeito.”
Cláudia não acreditou. Estaria a sonhar? A partir daquele dia, tudo mudou. Artur começou a aparecer na salinha todos os dias. Levava brinquedos novos, conversava com as meninas, perguntava sobre a vida de Cláudia.
“Como fazes com duas crianças sozinha?” Ela respondia devagar, desconfiada no início, mas aos poucos foi-se abrindo. Contou que o pai das meninas tinha desaparecido na gravidez, que trabalhava desde os 14 anos, que sonhava ter uma casinha, pequena, mas sua. E Artur, ele também começou a falar. Da solidão, de como era viver numa mansão vazia, sem ninguém com quem partilhar. De como o dinheiro resolvia tudo, menos o vazio.
Leonor e Beatriz chamavam-lhe “Tio Artur”. E ele adorava, trazia doces, livros, até que um dia apareceu com duas bicicletas cor-de-rosa com rodinhas. Cláudia tentou recusar. “Senhor, isto é demasiado.” Mas ele insistiu. “Deixa-me fazer isto, por favor.”
Os meses passaram e, sem perceber, Cláudia começou a sentir algo. Um frio na barriga quando ele chegava perto, um sorriso bobo quando elogiava a comida que ela fazia. Tentava afastar os pensamentos. “Que loucura, Cláudia. Ele é teu patrão. Ele é bilionário. Acorda.” Mas o coração não tem lógica.
Até que um dia, Sofia, a sua melhor amiga, deitou-lhe um balde de água fria. Estavam no autocarro, a voltar do mercado, quando ela soltou: “Cuidado, viu, Cláudia? Esse patrão anda muito envolvido com as tuas filhas.”
“Como assim?”
“Não vês? Homem rico a dar presentes, a fazer favores. Há histórias de patrões que tentam adotar filhos de empregadas. Conheço um caso. A mulher perdeu a guarda e tudo.”
Cláudia sentiu o chão sumir. “Sofia, para com isso.”
“Estou só a avisar. Fica esperta.”
Aquilo semeou-lhe um medo que cresceu. Cláudia começou a reparar em coisas. Artur perguntava muito sobre a escola das meninas. Certa vez, ouviu-o a falar ao telefone sobre mensalidades. Outra vez, viu um cartão-de-visita de uma advogada de família na mesa dele.
O pânico instalou-se. Afastou-se. Respondia a seco. Evitava que as meninas ficassem sozinhas com ele. Artur percebeu, tentou falar. “Cláudia, aconteceu alguma coisa?”
“Não, senhor. Está tudo bem.” Mas não estava. Uma semana depois, entregou a carta de demissão. Artur ficou estupefacto.
“O quê? Porquê?”
“Preciso de procurar outra coisa. Desculpe.”
“Cláudia, pelo amor de Deus, explica-me!” Mas ela segurou as lágrimas e saiu.
Artur não desistiu. Foi a sua casa, bateu à porta, implorou. Finalmente, no meio da escadaria do prédio, Cláudia explodiu.
“Quer tirar as minhas filhas de mim? Est”Eu nunca quis tirar-te nada, Cláudia, só queria ser parte da vossa vida, amar-vos como merecem, porque vocês trouxeram a luz que eu já não lembrava existir.”