**Capítulo 1: A Armadura dos Fantasmas**
O casaco cheirava a sabão velho, óleo de armas e o fundo de um armário que não era aberto há anos. Era um aroma complexo—uma mistura de metal afiado e conforto empoeirado que invadia minhas narinas cada vez que eu enterrava o rosto no colarinho. Para todos os outros na Escola Primária do Vale do Tejo, aquilo era um horror. Um casaco verde-azeitona gigante que me engolia por completo. Para mim, era a única coisa segurando meus átomos no lugar.
Eu tinha dez anos e estava me afogando.
Todas as manhãs, a rotina era a mesma. Minha mãe ficava na cozinha, encarando uma torrada que não comia, olheiras escuras como hematomas sob a luz cruel do amanhecer. Eu me vestia em silêncio, calçava meus jeans e tênis, e então ia até o cabide. Puxava aquele casaco pesado sobre os ombros. As mangas eram tão compridas que ultrapassavam meus dedos em dez centímetros, panos soltos que dificultavam segurar um lápis. A barra chegava às minhas canelas. Eu não andava—arrastava-me. Parecia uma criança vestida com trapos de um campo de batalha. Mas eu não ligava. Quando o fechava, o mundo ficava mais silencioso. Seguro.
As provocações começavam assim que eu descia do autocarro amarelo.
—Olhem só—anunciou Beatriz Lopes, a voz tão aguda que poderia partir vidro. Ela estava encostada nos cacifos, cercada por suas amigas de casacos pastel combinando. —A mendiga voltou. Encontrou isso no lixo atrás do Humana, Ana? Ou teve que cavar para achar?
Eu mantinha a cabeça baixa, olhando para os ladrilhos riscados do chão. Pé esquerdo, pé direito. Só chegar à aula. Não reagir. Não chorar.
—É ofensivo, na verdade—disse Rodrigo Silva. Ele era o tipo de criança que decorava regras só para dedurar os outros. Bloqueou meu caminho até a Sala 4B, cruzou os braços, inflando o peito. —Meu pai diz que usar equipamento militar sem ter servido é Roubo de Honra. É crime, Ana. Você é literalmente uma criminosa.
—Não… não é crime—sussurrei, a voz presa no colarinho de lã. —É do meu pai.
Rodrigo riu, um som seco que atraiu a atenção dos alunos mais velhos. —Ah, sim. Seu pai? Aquele que nunca aparece? Ele provavelmente comprou isso num bazar para parecer descolado. Falso. Como você.
Eles não sabiam. Nenhum deles sabia. Não sabiam da batida na porta três meses atrás. Não viram os dois homens de uniforme na varanda, rostos sérios como máscaras de luto profissional. Não conheciam a bandeira dobrada na lareira ou o jeito que minha mãe ficava na cozinha no escuro, esquecendo de acender as luzes quando o sol se punha.
Apertei as mangas do casaco mais forte. Dentro, no forro, ainda dava para sentir o cheiro dele. Um traço de pastilha de menta e chuva. Se respirasse fundo, ele estava me levando para a escola. Se fechasse os olhos, estava segurando minha mão, sua palma áspera e quente na minha.
—Deixa ela em paz, Rodrigo—uma voz baixa disse ao lado. Era Sofia, uma garota da aula de artes, mas ela não se aproximou. Parecia apenas desconfortável.
—Só estou defendendo os heróis—Rodrigo zombou, puxando a manga do meu casaco. —Tira isso, Ana. Você parece ridícula.
Eu me afastei, o tecido esticando. —Não.
—Lixo—Beatriz cochichou enquanto eu passava por eles. —Lixo completo.
Eu o vestia todos os dias. No calor sufocante de setembro, suava através da camiseta, gotas escorrendo pelas costas, mas não o tirava. Era minha armadura. Sem ele, eu era só uma menina sem pai e sem voz. Com ele, eu era a filha do Sargento Almeida. Mesmo que ninguém mais acreditasse.
**Capítulo 2: A Chegada do General**
Então, veio a Assembleia do Dia do Veterano.
O ginásio era uma caixa úmida de barulho. As arquibancadas rangiam sob o peso de quinhentas crianças inquietas. O ar cheirava a cerol, fiambre velho e ansiedade adolescente. Eu estava no canto mais alto, tentando me tornar invisível contra a parede de tijolo. Beatriz e suas amigas estavam duas filas abaixo, atirando pipoca na minha cabeça quando os professores não viam.
—Ei, soldado—Beatriz sussurrou, olhando para trás. —Vai descer lá e fazer continência? Talvez ganhe uma medalha de ‘Melhor Fantasia’.
O riso se espalhou pela seção como um vírus. Meu rosto queimou. Puxei o colarinho para cima, escondendo os olhos. Eu só queria desaparecer. Queria que o chão se abrisse e engolisse a mim e o casaco. Passei o polegar pela costura do bolso. *Aguenta*, eu disse a mim mesma. *O pai queria que você fosse corajosa.*
—Silêncio!—a voz do Diretor Sousa ecoou pelo sistema de som, cortando o barulho. —Hoje, temos um convidado muito especial. Um herói que serviu nosso país por trinta anos. Recebam… o General Eduardo Monteiro.
As portas duplas se abriram com um baque dramático.
A sala não ficou quieta—ficou em silêncio absoluto. Um vácuo. Até as inquietações pararam.
O General Monteiro entrou. Ele era assustador. Um homem montanhoso, quatro estrelas brilhando nos ombros sob a luz fluorescente. Seu uniforme estava tão alinhado que você poderia se cortar nas dobras. Ele não andava—marchava, dominando o espaço entre a porta e o pódio com passos que exigiam respeito. Tinha uma cicatriz no maxilar, cabelo grisalho raspado e olhos que pareciam ter visto o fim do mundo e sobrevivido.
Ele se aproximou do microfone. Ajustou-o sem olhar. Varreu os olhos pelos alunos. Não sorriu.
—Liberdade—começou, a voz grave ecoando no meu peito—não é de graça. É paga com sangue, suor e com as cadeiras vazias nas mesas deste país.
Ele era hipnótico. Até Rodrigo parou de mexer nos cadarços. O General falou de honra, sacrifício, dos irmãos que perdeu em lugares que nem sabíamos encontrar no mapa. Falou de dever.
E então, aconteceu.
Ele estava olhando para a plateia, a passando como um holofote. Falava sobre coragem diante do medo.
—Defendemos os que não podem se defender—ele disse e, de repente, parou.
No meio da frase.
Congelou.
O silêncio se esticou, pesado. O diretor parecia nervoso, mudando de peso. Os professores trocaram olhares confusos. O General esquecera o discurso? Estava doente?
Mas o General Monteiro não estava olhando para as anotações. Não estava olhando para o diretor. Estava olhando para cima.
Bem para cima.
Diretamente para o canto das arquibancadas.
Diretamente para mim.
Seu rosto, antes de pedra, perdeu a cor. A boca se abriu levemente, depois se fechou. Ele apertou os olhos, como se não acreditasse no que via. Era o olhar de um homem vendo um fantasma.
Ele saiu do pódio, ignorando o microfone. O feedback guinchou, mas ele não se mexeu. Contornou a mesa coberta pela bandeira portuguesa**Capítulo 2: A Chegada do General (Continuação)**
E então, sem dizer uma palavra, o General Monteiro estendeu a mão para mim, os olhos ainda fixos no velho casaco verde-azeitona, como se nele estivesse escrito um segredo que só ele podia ler.