Quando o carro da polícia parou de rajada na entrada do condomínio fechado nos arredores de Lisboa, o raptor já estava de bruços no chão, entre os pinheiros, com as mãos atadas às costas por um cinto de couro gasto, enquanto um velho guarda-florestal, furioso, ficava de pé sobre ele, com um bastão na mão.
O homem que tentara raptar chamava-se Nuno.
E, três anos antes, casara-se com a mulher de quem acabara de tentar roubar o bebé.
Nuno não se casou com Beatriz por amor.
Claro que disse a toda a gente que sim. Disse-lhe que era a alma gémea, que o próprio Deus os tinha unido sob os candelabros de cristal na festa de lançamento do pai dela, em Lisboa. Disse-lhe que era a única pessoa que realmente o via.
O que Nuno via mesmo era o número de zeros na herança dela.
Beatriz Cardoso era filha única de Henrique Cardoso, um magnata do comércio e logística, nascido no Algarve, que mudara a sede da empresa para Lisboa para ficar mais perto do dinheiro e do burburinho da capital. Henrique tinha pouco mais de cinquenta anos, corria cinco quilómetros por dia, bebia sumos verdes e parecia o tipo de homem que chegaria aos noventa ainda a responder e-mails.
Por isso, quando morreu subitamente de um AVC na sua mansão à beira-rio, o choque foi notícia de primeira página em todo o país.
Quase destruiu Beatriz.
E também lhe entregou, da noite para o dia, o controlo da Cardoso Transportes, três armazéns, uma carteira de propriedades no centro e uma conta de investimentos que podia comprar meio quarteirão em Lisboa à vista.
Nuno leu tudo num artigo online, enquanto estava deitado no sofá do apartamento da namorada de então, no Algarve, uma mão a scrollar distraidamente, a outra a mexer no rótulo de uma cerveja.
“Ela deve estar arrasada”, a namorada suspirou, a ver as notícias.
Nuno só ouviu: filha única, única herdeira.
Nuno era bonito de uma forma despreocupada, daquele tipo que fica bem em selfies do Instagram: alto, com corpo de ginásio, cabelo escuro sempre desalinhado o suficiente para parecer “natural”. Durante a maior parte da vida adulta, andou de mulher rica em mulher rica: uma dentista solitária em Setúbal que pagava-lhe os cartões de crédito, uma corretora imobiliária divorciada no Porto que lhe comprava relógios, uma gestora hoteleira no Estoril que lhe pagava a renda “só até ele se estabilizar”.
Ele nunca se estabilizou.
Não precisava. Em Portugal, aprendera, havia sempre outra mulher assim. Dinheiro, solidão e a necessidade de se sentir adorado eram uma combinação que lhe sustentava uma carreira.
Mas Beatriz estava noutro nível.
A morte de Henrique transformou-a numa princesa bilionária, de repente muito sozinha numa mansão enorme virada para o rio.
Nuno comprou um bilhete só de ida para Lisboa no dia seguinte.
Conheceu-a não num evento de gala, mas num leilão de caridade no Chiado, onde ela apareceu de preto, com os olhos vermelhos e um sorriso tenso, cumprindo um compromisso que o pai tinha assumido com um hospital infantil.
Nuno fizera o trabalho de casa. Sabia quais eventos ela frequentava. Sabia o café que ela pedia. Sabia que estivera ao lado do pai quando ele morrera, que não saíra de casa durante uma semana depois disso.
Foi cuidadoso. Não demasiado insistente. Um pouco desajeitado, como quem não está habituado a salas chiques. A história era que crescera numa família humilde no Alentejo, subiu sozinho até à capital, fazia “consultoria”, ajudava “pequenas empresas de logística a crescer”. O suficiente de verdade nas mentiras para parecerem sólidas.
Ouvia mais do que falava. Só isso fez metade do trabalho.
Em dois meses, já estava a passar noites em casa dela. Em seis, já lá vivia. Num ano, pediu-a em casamento, o anel a brilhar sob a chuva de Lisboa no terraço com vista para o rio.
A única coisa que não planeou foi o Sr. Mendes.
António Mendes fora o braço direito de Henrique Cardoso durante vinte e cinco anos, o diretor operacional, o advogado e o padrinho que Beatriz chamava de “Tio Toni” antes mesmo de saber dizer o apelido dele.
Estava na casa dos sessenta, afiado de uma forma silenciosa, o tipo de homem que podia estar três horas numa reunião de administração com as mãos cruzadas e, no último minuto, fazer uma pergunta que desmontava todo o disparate.
Amava Henrique como um irmão. Amava Beatriz como uma filha.
E sentiu o cheiro de Nuno no primeiro aperto de mão.
Beatriz, ainda fragilizada pelo luto, entrou no escritório do Tio Toni com um sorriso tímido e um anel no dedo.
“O Nuno pediu-me em casamento”, disse, a voz a tremer de felicidade. “Eu disse que sim. Vamos esperar que o luto passe, mas… queria que soubesses primeiro.”
António sorriu, parabenizou-a, deixou-a falar.
Depois, com suavidade: “E já falaram sobre um acordo pré-nupcial?”
A luz no rosto dela desvaneceu-se.
“O Nuno diz que é humilhante”, admitiu Beatriz. “Ele disse: ‘Achas mesmo que preciso do teu dinheiro?'”
“E tu, o que achas?”, perguntou António.
Beatriz mexeu no anel.
“Acho que sempre protegeste a empresa do meu pai”, disse baixinho. “E a mim. Por isso… se achas que precisamos de um acordo, teremos um acordo.”
Quando Beatriz contou a Nuno, ele explodiu.
“Isto é um insulto”, resmungou. “O teu padrinho não confia em mim? Acha que sou algum caça-fortunas?”
Beatriz encolheu-se. “Ele só quer proteger a empresa. É… é pela companhia. Pelos funcionários. Nuno, por favor. É só uma formalidade. Nunca iremos precisar. A menos que… nos divorciássemos.”
Disse a última palavra como se fosse um pecado.
Nuno viu que estava encurralado.
Pensara que casar com ela lhe daria acesso direto à empresa, um lugar no conselho, parte de tudo. A ideia de poder ser legalmente excluído revirava-lhe o estômago.
Mas se recusasse, Beatriz podia começar a fazer perguntas que ele não podia pagar.
Então, fingiu magoado. Manteve a voz baixa.
“Se te faz sentir melhor”, disse finalmente, “assino o que quiseres. Eu amo-te. Não a tua conta bancária.”
A pré-nupcial foi brutal — para ele.
Preparada por um escritório de advogados de topo em Lisboa, deixava claro que a empresa, a herança dos Cardoso, a mansão à beira-rio e todos os bens herdados eram propriedade exclusiva de Beatriz para sempre. Por mais tempo que estivessem casados, por mais que ele fizesse, nunca seria dono do que Henrique construíra.
Nuno engoliu o orgulho e assinou.
Disse a si mesmo que não importava. Ainda viveria bem. Usaria contas conjuntas, desviaria dinheiro aos poucos, criaria um fundo de segurança. Beatriz era emotiva, não prática. Saberia os números do cartão dela antes do primeiro aniversário.
Esse foi o seu segundo erro.
Se Henrique tivesse um amigo de verdade neste mundo, era António Mendes.
Se houve um último ato de amor dele pela filha antes de morrer, foi dizer a António: “Nunca deixes que se aproveitem dela. Nem um membro do conselho. Nem um homem. Nem dela própria.”
António levou esse trabalho tão a sério como levarCom o tempo, Robert cresceu rodeado de amor, enquanto Nuno, longe dali, continuava a culpar o mundo por tudo o que perdera, sem nunca entender que a única prisão real era a que ele mesmo construíra dentro da sua mente.