Capítulo 1: O Elevador Avariado
A chuva em Lisboa não limpa nada; só deixa a sujidade mais escorregadia. Era nisso que eu pensava enquanto encarava o aviso “Avariado” colado com fita-cola nas portas de aço do elevador. Estava escrito à mão, com caneta permanente, no verso de um panfleto de uma pizzaria. Era a terceira vez este mês.
Ali sentado, agarrado às rodas da minha cadeira, sentia o frio húmido do prédio invadir as minhas pernas sem vida. Chamo-me Manuel. Há três anos, era chefe de uma equipa de construção civil, ajudando a erguer os edifícios desta cidade. Media um metro e oitenta e cinco, pesava cem quilos de músculo e tinha uma mulher que ria como os sinos da igreja aos domingos de manhã.
Depois veio o bêbado na A1. Agora, a Ana está debaixo da terra, e eu estou nesta cadeira, a viver de apoios do estado, num prédio onde os canos do aquecimento fazem um barulho de tiros a noite toda.
“Caramba,” murmurei, batendo com a palma da mão no braço da cadeira.
O som ecoou nos azulejos amarelados. Tinha duas opções: esperar pelo senhorio, um tipo chamado Artur que cheirava a aguardente e desinteresse, ou arrastar-me pelos três andares de escadas abaixo, de costas. O truque era travar as rodas, puxar o traseiro para o degrau e arrastar a cadeira de cinquenta quilos atrás de mim. Era humilhante. Era doloroso. Era a minha vida.
“Estás zangado outra vez.”
A voz veio das sombras debaixo da escada.
Virei a cadeira. Era o miúdo. O Luís.
Ele morava no 3ºB, mesmo em frente ao meu apartamento. Não sabia muito sobre ele, só que nunca via os pais. Era um miúdo que andava sempre sozinho, talvez com nove ou dez anos, magro como um palito. Vestia sempre o mesmo casaco cinzento desportivo, muito grande, com as mangas gastas a cobrir-lhe os nós dos dedos.
“Não estou zangado, Luís,” menti, com a voz rouca. “Só cansado. O elevador está avariado.”
O Luís saiu da escuridão. Parecia pior que o habitual. A pele dele estava pálida, como papel velho. Tinha olheiras profundas, roxas, e tremia, apesar de estar vestido por camadas.
“O Artur só o repara na terça,” disse o Luís, aproximando-se. “Está a ver o jogo.”
“Terceira,” resmunguei. “Fantástico.”
Olhei para as escadas. Pareciam o Everest.
“Eu posso ajudar-te,” disse o Luís.
Quase me ri. O miúdo parecia que uma rajada de vento o derrubaria. “Obrigado, rapaz, mas a menos que tenhas um jetpack nesse casaco, não podes ajudar-me.”
O Luís não sorriu. Ele nunca sorria. Apenas me olhava com aqueles olhos claros e perturbadores. Eram cinzentos, mas não um cinzento liso—pareciam fumo preso em vidro.
“Não digo para te carregar,” murmurou. Meteu a mão no bolso. “Quero dizer… posso consertar-te.”
“Sabes consertar um elevador?”
“Não,” respondeu. “Conserto-te a ti.”
O ar no hall pareceu gelar. O zumbido da máquina de venda automática parou subitamente. Por um instante, só se ouvia a chuva a bater na porta de vidro.
“O que estás a dizer, miúdo?” perguntei, mais seco do que pretendia.
O Luís deu um passo. Abriu a mão.
Na sua palma pequena e pálida estava uma moeda. Mas não era um euro ou cinquenta cêntimos. Era pesada, de um prata escuro, quase preta nas ranhuras. Não era redonda—parecia feita à mão. A superfície tinha símbolos que não reconheci—espirais e linhas irregulares, como relâmpagos.
“A minha avó,” começou ele, com a voz a tremer, “ela sabia coisas. Coisas antigas. Dizia que o mundo é uma balança. Se tiras algo, tens de dar algo em troca.”
“Luís, estou gelado. Se queres contar-me uma história de fantasmas, guarda-a para o Halloween.”
“Não é uma história,” insistiu. Abriu a mão.
“Ela deu-me isto antes de morrer,” sussurrou. “Chamava-lhe a Última Sorte. Dizia que todos nascem com um balde de sorte. A maioria desperdiça. Alguns… alguns têm-na roubada.”
Olhou para as minhas pernas paralisadas.
“A tua foi roubada, Manuel.”
Senti um nó na garganta. Odiava pena. Especialmente de um miúdo. “Guarda isso, Luís.”
“Eu ainda tenho um pouco,” continuou, ignorando-me. “Guarde”Eu não preciso mais dela,” disse Luís, com um sorriso triste, enquanto a poeira do seu corpo se misturava com o vento que entrava pela janela, e eu entendi, finalmente, que a verdadeira cura não estava em andar de novo, mas em aprender a voar sem asas.