**Diário de um Homem Comum**
O calor em Lisboa em pleno agosto não é apenas temperatura; é uma entidade viva, um peso que esmaga o peito e seca a alma. Na Zona Industrial de Chelas, o alcatrão parecia derreter sob o sol impiedoso das três da tarde, formando miragens que enganavam os olhos, mas não o corpo. Dentro da “Oficina Valente”, o termómetro marcava quarenta e cinco graus. O ar era denso, carregado do cheiro a óleo queimado, borracha vulcanizada e o suor ácido de homens que trabalhavam no limite.
Miguel Ribeiro limpou a testa com o dorso da mão, deixando uma mancha de graxa na pele já curtida pelo sol e pelo trabalho. Estava há seis horas debaixo de um velho Renault Clio que parecia ter sobrevivido a uma guerra, a lutar com uma transmissão teimosa como uma mula. Os nós dos dedos estavam em carne viva, as unhas negras de sujidade, e as costas doíam da postura forçada. Mas Miguel não reclamava. Não podia.
—Ribeiro! —o grito ecoou na oficina, cortando o barulho das chaves pneumáticas como um chicote. —Vais demorar o dia inteiro com esse ferro-velho? O cliente vem dentro de uma hora, e quero esse carro fora do elevador!
Artur Valente, o dono da oficina, observava da porta do seu escritório com ar condicionado. Vestia uma camisa de marca impecável, um contraste obsceno com a sujidade que cobria os empregados. Artur era baixo, mas o ego não cabia naquele espaço; um tirano moderno que adorava exercer o seu poder sobre quem dependia dele para comer. Não era apenas um mau patrão; era uma má pessoa, daquelas que olham com desdém e humilham para se sentirem maiores.
—Já está quase, Senhor Artur —respondeu Miguel, saindo de debaixo do carro e forçando um sorriso. —Só estava um parafuso preso no cárter, mas já sai.
—Menos conversa e mais mãos, Ribeiro —cuspilhou Artur, olhando para o relógio de ouro no pulso. —Lembra-te que há uma fila de miúdos no desemprego que aceitam o teu lugar por metade do salário. Não és insubstituível. Ninguém é.
Miguel baixou a cabeça e assentiu, engolindo a raiva que lhe queimava a garganta mais que o calor. Sabia que era mentira. Era o melhor mecânico da oficina, o único que diagnosticava problemas que as máquinas não detectavam. Mas também sabia que Artur tinha razão nisso: a necessidade. Miguel tinha quarenta e dois anos, uma hipoteca num apartamento modesto na Amadora que o sufocava todos os meses, e três miúdos que cresciam a correr — o Tomás, que precisava de aparelho nos dentes; a Leonor, que sonhava com a universidade; e o pequeno Martim, que mal começara a escola. A mulher, a Sofia, limpava escritórios na Avenida da Liberdade, a desfazer-se para trazer um salário que mal dava para a comida.
O medo de perder o emprego era o que o mantinha calado, a aguentar insultos, horas extra não pagas e o desprezo constante. *”Faz por eles”*, repetia como um mantra. *”Aguenta mais um pouco, Miguel. Só mais um pouco.”*
Às quatro da tarde, o sol começava a descer, mas o calor continuava insuportável. Miguel saiu para beber água da fonte pública, buscando um segundo de alívio. A rua estava vazia, só alguns camiões de entrega passavam.
Foi então que a viu.
Pensou que fosse ilusão do calor. Uma miúda pequena, de uniforme escolar — saia cinza e camisola branca — caminhava, cambaleante, do outro lado da rua. Parecia perdida. Não havia escolas ali, só armazéns e oficinas. A menina, de uns oito anos, arrastava os pés, o cabelo louro colado à testa pelo suor.
Miguel franziu a testa, esquecendo a garrafa. Algo não estava bem. A miúda parou, levou a mão ao peito e, como uma boneca com os fios cortados, caiu no cimento a ferver.
O baque do corpo no chão foi quase imperceptível, mas para Miguel soou como um tiro.
—Ó menina! —gritou, largando a garrafa.
Olhou em volta. Dois trabalhadores da oficina ao lado estavam a fumar, mas ficaram parados, a olhar com aquele receio de se meterem em problemas. Ninguém se mexia. O *”não te metas”* pairava no ar.
Mas Miguel não pensou. O corpo reagiu antes do cérebro. Atravessou a rua a correr, esquivando-se de uma carrinha que buzinou furiosamente.
Ao chegar perto dela, o coração gelou. A menina estava deitada de costas, a pele pálida, os lábios azulados. Os olhos fechados, o peito quase não se mexia. Miguel ajoelhou, ignorando a dor dos joelhos no alcatrão a arder.
—Ó menina, ouves-me? —deu-lhe palmadinhas suaves na face. A pele estava a escaldar, mas húmida e fria ao toque. Mau sinal. Muito mau.
Aproximou o ouvido da boca dela. A respiração era fraca, irregular. Colocou dois dedos no pescoço. O pulso era frenético e fraco, como um pássaro preso.
—Chamem uma ambulância! —gritou para os homens do outro lado. —Caramba, não fiquem aí parados! Ela está a morrer!
Um deles sacou do telemóvel, mas Miguel sabia como as coisas funcionavam. Uma ambulância na hora de ponta, numa zona industrial, podia demorar vinte, trinta minutos. Olhou para a menina. Os lábios estavam mais azuis. Não tinha vinte minutos. Talvez nem cinco.
Decidiu num instante. Pegou na menina com os braços fortes e sujos de graxa. Ela pesava tão pouco que lhe deu vontade de chorar. Correu para a sua velha Renault Kangoo estacionada à frente da oficina.
Estava a abrir a porta quando uma voz odiosa o parou.
—Ribeiro! O que raio pensas que estás a fazer?
Artur Valente estava à porta da oficina, os braços cruzados, o rosto vermelho de raiva. Tinha visto tudo, mas não parecia importar-se com a menina — só com o trabalho interrompido.
—Senhor Artur, esta menina está a morrer —gritou Miguel, com a miúda nos braços, sentindo a vida a escapar-se-lhe. —Desmaiou. Tenho de a levar às urgências. A ambulância vai demorar.
Artur desceu os degraus devagar, como um predador sabendo que a presa não tem escapatória.
—Isso é problema meu? Ou teu? —perguntou com uma frieza que gelava. —Tens três carros à espera. O dono do BMW vem em vinte minutos. Se fores agora, deixas o trabalho a meio.
—É uma vida, Artur! —rugiu Miguel, perdendo pela primeira vez o *”Senhor”*. —É uma criança! Podia ser a tua filha ou a minha!
—Não é a minha filha. E não te pago para seres bom samaritano —Artur aproximou-se. —Ouve bem, Miguel. Se entrares nessa carrinha e saíres da minha oficina em horário de trabalho, nem penses em voltar. Estás despedido. E garanto que não arranjas emprego nem para trocar pneus em Lisboa inteira. Acabo contigo.
O mundo parou. Miguel olhou para Artur, viu a maldade pura nos olhos, a falta de humanidade. Depois olhou para a menina. Os cíliosMiguel olhou uma última vez para Artur, respirou fundo, e entrou na carrinha com a menina nos braços, acelerando em direção ao hospital, sabendo que, mesmo perdendo tudo, tinha feito a única escolha que um homem de coração poderia fazer.