O bebê do milionário não comia nada até que a empregada humilde cozinhou isto. “Senhor Almeida, se o seu filho não comer nas próximas 24 horas, teremos de hospitalizá-lo e alimentá-lo por sonda.” As palavras do Dr. Pereira ecoaram como uma sentença de morte nos ouvidos de António Almeida.
O homem mais poderoso da indústria hoteleira em Portugal, dono de uma fortuna avaliada em mais de 100 milhões de euros, encontrava-se completamente impotente diante da recusa do seu bebé de 18 meses a qualquer alimento. António observava através do vidro do quarto infantil enquanto o pequeno Tomás choraba inconsolavelmente nos braços da enfermeira Margarida, a quinta especialista em nutrição pediátrica contratada nos últimos dois meses.
Sobre a mesinha de mogno português repousavam intactos os purés orgânicos importados de França, as papinhas preparadas pelo chef do restaurante mais exclusivo de Lisboa e até as mamadeiras com as fórmulas mais caras do mercado. Nada. A criança recusava tudo. Seis meses haviam passado desde aquela noite chuvosa de abril quando Catarina, sua esposa, perdera a vida num trágico acidente de carro na A1. Seis meses em que a luz se apagara não só nos olhos de António, mas também nos do seu pequenino.
Tomás começara a recusar comida gradualmente até chegar ao ponto em que seus lábios se negavam a abrir-se diante de qualquer colher que se aproximasse. “Senhor Almeida, tentei tudo o que estava ao meu alcance”, disse a enfermeira Margarida ao sair do quarto com o rosto pálido de frustração. “A criança simplesmente não quer comer, nem mesmo as bolachas que normalmente encantam bebés da sua idade.”
António passou uma mão pelo cabelo perfeitamente penteados, desfazendo a ordem que sua imagem pública sempre exigira. Seus olhos escuros, que intimidavam empresários em salas de reuniões, agora só refletiam desespero. “Quanto peso perdeu?”, perguntou com voz rouca. “Quase 2 kg no último mês, senhor. Seu peso está abaixo do percentil mínimo para a idade.” Se continuar assim… A enfermeira não terminou a frase – não era necessário.
Nesse momento, os tacones de sapatos caros ressoaram contra o mármore do corredor. Aparecendo das sombras, surgiu Dona Beatriz Almeida de Vasconcelos, mãe de António, uma mulher de 62 anos cujo rosto fora trabalhado pelos melhores cirurgiões plásticos do Porto. Vestia um fato Chanel cor pérola e trazia ao pescoço um colar de pérolas naturais que pertencera à sua avó. “António, isto é ridículo”, declarou Beatriz com sua voz autoritária. “Essa criança precisa de mão firme, não de todas essas asneiras de enfermeiras e especialistas. No meu tempo, as crianças comiam o que lhes colocavam à frente ou ficavam com fome.”
“Mãe, por favor, não agora”, suplicou António, esfregando as têmporas onde começava a formar-se uma enxaqueca. “Falo sério, filho. Gastaste uma fortuna com todos esses peritos.” E a criança continua igual. Sabes do que Tomás precisa? Precisa de uma mãe, uma mulher de boa família que o possa criar adequadamente. A Leonor Mendonça perguntou por ti várias vezes. Sua família tem excelente reputação e ela adoraria ser mãe de Tomás.
“Basta, mãe.” A voz de António trovejou pelo corredor, fazendo a enfermeira Margarida estremecer. “A Catarina morreu há 6 meses. Seis meses e só consegues pensar em substituí-la como se fosse um móvel velho.” Beatriz apertou os lábios formando uma linha fina de desaprovação. “Não estou dizendo para a substituíres, António, mas essa criança precisa de estabilidade, precisa de uma figura materna e tu precisas de seguir em frente com a tua vida.”
“Minha vida é o meu filho”, respondeu António com firmeza. “E encontrarei maneira de o ajudar, com ou sem a tua aprovação.” Beatriz suspirou dramaticamente e virou-se, suas pérolas brilhando sob a luz do candelabro. “És tão teimoso como o teu pai. Mas tudo bem, continua a desperdiçar o teu dinheiro em soluções que não funcionam. Quando essa criança estiver no hospital ligada a um tubo, lembra-te que te avisei.”
As palavras de sua mãe ficaram pairando no ar enquanto ela se afastava, o som de seus saltos desaparecendo pelo corredor. António entrou no quarto de Tomás e aproximou-se do berço onde o pequeno jazia exausto de tanto chorar. Suas bochechas, antes rechonchudas e rosadas, agora mostravam os ossos salientes. Seus olhos verdes, iguais aos de Catarina, olhavam-no com uma tristeza que nenhum bebé deveria conhecer. “Meu pequeno príncipe”, sussurrou António acariciando suavemente a cabeça do filho. “Por favor, come qualquer coisa, o que for. Teu pai faria qualquer coisa para te ver bem.” Tomás simplesmente fechou os olhos, exausto.
Do outro lado da cidade, num modesto apartamento no Bairro da Mouraria, Inês Nunes dobrava cuidadosamente sua única saia apresentável, enquanto sua irmã mais nova, Joana, a observava do colchão que partilhavam. “Tens certeza disto, Inês?”, perguntou Joana, de 16 anos, roendo uma unha. “Dizem que os ricos são muito exigentes e tu nunca trabalhaste numa casa assim.”
Inês, de 28 anos, sorriu com aquela tranquilidade que só a fé e a necessidade combinadas podem dar. Seu rosto moreno mostrava os traços indígenas herdados dos avós cabo-verdianos e seus olhos castanhos brilhavam com determinação. “Joana, estamos há três meses em Lisboa e mal conseguimos pagar a renda. A mãe precisa dos remédios na aldeia e tu precisas terminar o secundário. Esta oportunidade na casa dos Almeida paga o triplo do que ganhava limpando escritórios.”
“Mas dizem que a Dona Beatriz é uma bruxa”, insistiu Joana. “A Sandra, que vende pastéis na esquina, diz que a prima dela trabalhou lá e foi despedida em duas semanas por partir uma chávena.” Inês meteu a saia na pequena mala de tecido. “Então terei cuidado para não partir nenhuma chávena”, respondeu com humor. “Além disso, precisamos desse dinheiro. Não podemos dar-nos ao luxo de ter medo.”
Aproximou-se da estante onde guardavam a única fotografia que trouxeram da aldeia. Sua avó Amália, com seu avental de flores e sorriso cheio de sabedoria, em pé diante do pequeno fogão a lenha. “A avó sempre dizia que Deus providencia”, murmurou Inês tocando o vidro da moldura. “E que as mãos humildes podem curar mais que o dinheiro. Confio nisso.”
“Oxalá tenhas razão, irmã.” No dia seguinte, ao amanhecer, Inês apanhou três autocarros diferentes para chegar à zona nobre de Lisboa. Quando o táxi que tomou na última parada parou diante da mansão Almeida, Inês conteve um grito de admiração.
A residência era um palácio moderno de três andares com enormes janelas, jardins perfeitamente aparados e uma fonte de pedra na entrada. As paredes eram pintadas de um branco imaculado e os portões de ferro forjado brilhavam sob o sol da manhã. “Tem certeza que é aqui, menina?”, perguntou o taxista olhando-a pelo espelho retrovisor com evidente curiosidade.
Inês assentiu, pagou com as últimas notas que lhe restavam e respirou fundo antes de tocar a campainha da entrada de serviço. A porta foi aberta por uma mulher robusta de uns 50 anos, de expressão séria e avental impecável. “Inês Nunes?”, perguntou semA porta foi aberta por uma mulher robusta de uns 50 anos, de expressão séria e avental impecável: “Inês Nunes?”, perguntou sem preâmbulos, enquanto o aroma reconfortante de canela e cominhos escapava pela cozinha, anunciando que nesta casa de paredes frias e corações feridos, uma nova história de amor e redenção estava prestes a começar.