Libertem a Empregada, a Verdadeira Culpada é Minha Madrasta!

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As portas duplas do tribunal abriram-se de repente com um estrondo que ecoou por toda a sala. Uma menina de 4 anos, com um vestido rosa manchado de lama e os sapatos perdidos em algum lugar do caminho, entrou correndo pelo corredor central. Joana não fez nada.

Joana não fez nada, gritava com toda a força que seus pequenos pulmões permitiam. O juiz ergueu o martelo, mas ficou paralisado. Os murmúrios cessaram imediatamente. Todos os olhos se voltaram para a pequena figura que tremia no centro da sala, com os cabelos desalinhados e as bochechas vermelhas de tanto correr.

Joana, sentada no banco dos réus, sentiu o coração parar. As lágrimas que havia contido durante semanas começaram a escorrer. Não podia acreditar no que via. Sofia sussurrou. A menina virou-se para ela e, por um momento, seus olhos se encontraram. Depois, com uma determinação que não deveria existir em alguém tão pequeno, Sofia ergueu o dedo trêmulo e apontou para a primeira fila.

Foi ela, disse com voz quebrada, mas clara. Foi minha madrasta. Renata Oliveira permaneceu imóvel em seu assento, vestida de preto, com as mãos perfeitamente apoiadas no colo. Seu rosto mantinha a expressão de dor contida que mostrara durante todo o processo, mas algo mudara em seus olhos. O pânico se infiltrava como água através de uma rachadura.

O juiz bateu o martelo três vezes. Ordem! Ordem na sala! Sua voz ressoou acima do caos que eclodira. Declarou um recesso de 30 minutos. Mas antes que alguém pudesse reagir, Sofia correu em direção a Joana. Os seguranças moveram-se para detê-la, mas o advogado de defesa ergueu a mão. É a filha da vítima, murmurou ao juiz.

Joana inclinou-se o quanto as algemas permitiam. Sofia agarrou suas mãos acorrentadas e sussurrou algo que só ela pôde ouvir. Eu vi tudo, Joana. Vi o que ela fez.

Seis meses antes, a casa dos Almeida era muito diferente. O sol da tarde entrava pelas janelas da sala principal, iluminando os móveis de mogno e os tapetes persas que Eduardo comprara em uma de suas viagens de negócios. Sofia estava sentada no chão, rodeada por suas bonecas, mas não brincava.

Observava os adultos conversando no sofá como se fossem atores em uma peça que não entendia. “Sofia, meu amor, vem cá”, disse Eduardo com aquela voz especial que usava quando queria sua atenção. “Quero que conheças alguém muito especial.”

A mulher sentada ao lado de seu pai era bonita. Tinha cabelos castanhos e brilhantes, como os das princesas dos contos de fadas, e usava um vestido azul que parecia caro. Quando sorria, seus dentes eram muito brancos. “Olá, pequena”, disse a mulher, inclinando-se. “Eu sou a Renata. Seu pai e eu vamos nos casar em breve.” Sofia olhou para o pai, confusa.

“Significa que não vai mais viajar tanto?”, perguntou. Eduardo riu e a pegou no colo. Significa que a Renata vai ser sua nova mãe. Não é maravilhoso? Sofia não tinha certeza do que sentir. Lembrava-se vagamente de sua mãe verdadeira, que morrera quando ela tinha dois anos.

Mas Joana sempre estivera ali, cuidando dela, lendo histórias antes de dormir, consolando-a quando tinha pesadelos. Renata estendeu os braços. “Vem comigo, filhinha. Vamos ser muito felizes juntas.” Quando Sofia se aproximou, Renata a abraçou, mas algo naquele abraço parecia errado. Era como abraçar uma boneca grande e fria. Renata cheirava a perfume caro, mas por trás desse cheiro havia algo mais, algo que Sofia não conseguia identificar, mas que a fazia querer se afastar.

Da porta da cozinha, Joana observava a cena. Trabalhava naquela casa há três anos, desde que a senhora Beatriz morrera. Vira Sofia dar os primeiros passos, ouvira suas primeiras palavras após o acidente. Aquela menina era mais do que seu trabalho. Era como a filha que nunca tivera. Algo no modo como Renata olhava para Sofia a perturbava.

Quando Eduardo virava para buscar documentos ou atender uma ligação, o sorriso de Renata desaparecia completamente. Seus olhos estudavam a menina como se ela fosse um problema a ser resolvido. “Joana, pode nos trazer café? Renata e eu temos muito o que planejar.”

Enquanto preparava o café, Joana ouvia as vozes vindas da sala. Eduardo falava do casamento, das mudanças que viriam, de como estava feliz por formar uma família novamente. Renata respondia com palavras perfeitas, mas sua voz soava ensaiada. “Ah, que gracinha!”, Joana a ouviu dizer quando Eduardo mencionou algo sobre Sofia. “Vamos ser as melhores amigas.”

Mas quando Joana voltou com a bandeja, viu que Renata apertava o ombro de Sofia com força demais. A menina ficara rígida e olhava para a janela como se quisesse fugir. O café, anunciou Joana, colocando a bandeja na mesa. “Obrigado, Joana”, disse Eduardo, sem tirar os olhos dos papéis.

“A propósito, preciso viajar para o Porto na próxima semana. Ficarei fora dez dias.” Joana viu como os olhos de Renata brilharam com algo que não parecia tristeza. “Já tão cedo?”, disse Renata. “Mal nos conhecemos, eu e a Sofia.” “É inevitável, meu amor, mas assim vocês terão tempo para se adaptar. A Joana vai ajudar.” “Claro”, murmurou Renata, mas seu olhar para Joana não era amigável.

Naquela noite, depois que Renata foi embora e Eduardo estava em seu escritório revisando contratos, Joana ajudou Sofia a tomar banho e vestir o pijama. Era seu momento favorito do dia. “Gosta da Renata?”, perguntou enquanto penteava seus cabelos.

Sofia encolheu os ombros. “Não sei. Ela cheira estranho.” “Estranho como?” “Como… quando o pai esquece as flores no vaso por muito tempo.” Joana franziu a testa. Era uma descrição estranha, mas crianças às vezes percebiam coisas que adultos não notavam. “E como se sente com ela morando aqui? Você irá embora?”, perguntou Sofia, virando-se rapidamente, os olhos arregalados.

“Não, minha menina, eu não vou a lugar nenhum.” Sofia a abraçou forte. “Promete?” “Prometo.” Mas enquanto cobria Sofia naquela noite, Joana não conseguia se livrar da sensação de que algo estava prestes a mudar para sempre.

Os dias seguintes confirmaram seus temores. Renata começou a passar mais tempo na casa, “se familiarizando com as rotinas”, dizia. Mas Joana notava como ela observava tudo: os horários das empregadas, onde as chaves eram guardadas, que remédios Eduardo tomava. “Para que serve isto?”, perguntou Renata uma tarde, apontando para um frasco no armário de remédios de Eduardo. “Para o coração”, respondeu Joana.

“O médico disse que ele precisa tomar todas as noites. Se esquecer, eu lembro. Tenho um registro.” Renata assentiu pensativa, como se memorizasse algo importante. Uma semana depois, Eduardo partiu para sua viagem. Renata chegou cedo naquela manhã com duas malas. “Pensei que seria bom que eu e Sofia passássemos tempo juntas”, explicou a Eduardo, como um tipo de “lua de mel mãe e filha”.

Eduardo parecia encantado com a ideia. “Joana estará aqui para ajudar no que precisar”, disse antes de ir embora. “E a Maria também, é claro.” Maria era a mulher que cuidava da limpeza e trabalhava na casa antes mesmo de Joana. Era mais velha,Sofia abraçou Joana com força, e as duas sentiram que, depois de tanto sofrimento, finalmente estavam seguras e livres para recomeçar sua vida juntas.

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