O relógio digital do micro-ondas marcava 23:42. Lá fora, o vento uivava pelas calhas da minha pacata rua suburbana em Braga, o tipo de vento que sacode as janelas e nos faz agradecer pelo vidro duplo e pelo aquecimento central. Eu estava sentado no sofá, a deslizar sem rumo no telemóvel, a saborear uma cerveja morna e a tentar ignorar a sensação de solidão que se instalara em casa desde o divórcio, no ano passado. A casa era grande demais para uma só pessoa. O silêncio era ensurdecedor.
Foi então que ouvi.
Toc. Toc. Toc.
Não era o toque da campainha. Nem uma batida assertiva. Era um som hesitante e ritmado contra a pesada porta de carvalho. O estômago apertou-me. Naquele bairro, ninguém bate à porta depois das 21h, a não ser que haja um incêndio ou uma emergência policial. E, certamente, ninguém bate daquela maneira.
Silenciei a televisão. Fiquei imóvel, esperando que fosse imaginação minha, culpa da tempestade.
Toc. Toc. Toc.
Claro. Deliberado. Real.
Levantei-me, com as articulações a ranger, e dirigi-me à entrada. Não acendi a luz do alpendre logo. A paranóia é um efeito colateral de se viver sozinho em 2024. Lê-se as notícias. Sabe-se dos golpes. Alguém finge estar em apuros, abre-se a porta, e três homens com passamontanas entram a correr. Olhei pelo olho mágico, mas a condensação da chuva gelada embaciara a lente. Só via uma sombra pequena e escura.
“Quem é?” gritei, tentando parecer mais firme do que me sentia.
Silêncio. Apenas o vento a bater contra as paredes.
Pensei em ligar para o 112. Mas algo me deteve. Talvez fosse o tamanho da sombra. Parecia pequena demais para ser uma ameaça. Destranquei a porta, deixei a corrente posta e abri uns centímetros.
O frio entrou de repente, cortante. E lá estava, em cima do tapete de boas-vindas, encharcada até aos ossos, uma menina.
Não devia ter mais do que oito ou nove anos. Vestia um casaco cor-de-rosa três vezes maior que ela, com as mangas enroladas, revelando mãos pálidas e trémulas. Os ténis estavam gastos até à sola, encharcados de lama cinzenta. O cabelo colado à testa, a água a escorrer-lhe do nariz.
Mas foram os olhos que me congelaram. Não chorava. Estavam assustadoramente calmos, profundos, carregados de um cansaço que uma criança nunca deveria conhecer.
“Não tenho dinheiro”, disse instintivamente, ainda desconfiado. Foi um reflexo. Senti-me culpado mal as palavras saíram, mas estava confuso. Onde estavam os pais dela? Era uma isca?
Ela abanou a cabeça devagar. Os lábios estavam azulados. Não olhava para o calor do corredor atrás de mim, mas diretamente para o meu rosto.
“Não quero dinheiro, senhor”, sussurrou. A voz era frágil, como folhas secas.
“Estás perdida? Queres que chame a polícia?” perguntei, a mão a aproximar-se do telemóvel no bolso.
“Sem polícia”, disse, um lampejo de pânico nos olhos. “Por favor. Sem polícia.”
“Então o que queres? Está um frio de rachar aqui fora.”
Ela respirou fundo, o pequeno peito a subir e descer sob o casaco molhado. Baixou os olhos para os ténis encharcados e depois olhou para mim.
“Só quero entrar”, disse.
“Miúmia, eu não posso…”
“Cinco minutos”, interrompeu. “Só quero sentar-me numa casa. Só cinco minutos.”
Fitei-a. “O quê?”
“Não tenho fome. Não quero roubar nada. Prometo.” Abraçou-se, tremendo violentamente. “Só… esqueci como é. Ter uma casa. Estar dentro, onde está quente e calmo. Só quero sentar-me. Por favor. Cinco minutos. Depois vou-me embora.”
O coração batia-me com força. Isto era loucura. Era perigoso. Não conhecia aquela criança. Mas vê-la ali, na chuva gelada, a pedir não comida, não dinheiro, mas a sensação de um lar… partiu-me algo por dentro. O cinismo que construíra como uma fortaleza desmoronou-se.
Tirei a corrente. Abri a porta por completo.
“Entra”, disse, a voz mais suave. “Entra antes que morras de frio.”
A menina pisou cuidadosamente o limite da porta, olhando para baixo como se os sapatos sujos fossem ofender o chão.
“Tira-os”, disse com delicadeza. “Vou buscar uma toalha.”
Ela descalçou os ténis encharcados. As meias não combinavam, cheias de buracos. Corri ao armário da roupa, peguei numa toalha grossa e num cobertor de sobra que guardava para visitas que nunca vinham. Quando voltei à sala, ela não olhava para a televisão de 65 polegadas. Nem para o iPad caro na mesa de centro.
Estava no meio da sala, de olhos fechados, a respirar fundo.
“Cheira a roupa lavada”, murmurou. “E a madeira.”
Enrolei o cobertor nos seus ombros. Ela estremeceu no início, depois afundou-se no tecido, puxando-o bem junto ao pescoço. “Senta-te”, insisti. “Por favor.”
Sentou-se na borda da poltrona bege, sem se recostar, a postura rígida. Olhava para a lareira, onde os troncos de gás estavam desligados. Agarrei no comando e acendi-os. As chamas surgiram atrás do vidro. Os olhos dela alargaram-se, refletindo o laranja das labaredas.
“Vou fazer-te um chocolate quente”, disse. “Não discutas.”
Ela não discutiu. Apenas contemplou o fogo.
Fui para a cozinha, as mãos a tremer enquanto aquecia leite numa panela. A mente acelerava. Quem era ela? Donde vinha? Tenho de chamar alguém. Não posso deixar uma criança voltar para a noite.
Quando voltei com a chávena fumegante, ela passava a mão pelo tecido do braço da poltrona, traçando o padrão do estofo com uma reverência que a maioria reserva a objetos sagrados.
“Toma”, disse, entregando-lhe a chávena.
Ela segurou-a com ambas as mãos, deixando o calor penetrar-lhe nas palmas. Não bebeu logo. Apenas encostou-a à face.
“Obrigada”, disse.
“Como te chamas?” perguntei, sentando-me na mesa de café à sua frente, mantendo distância.
“Leonor”, respondeu.
“Leonor, onde estão os teus pais?”
Deu um gole, um pequeno sorriso a tocar-lhe os lábios quando sentiu o chocolate. “A minha mãe está lá fora. Na rua ao lado.”
“Lá fora?” Levantei-me. “Nesta tempestade?”
“Vivemos no carro”, disse Leonor, simplesmente, como se falasse do tempo. “Mas o carro ficou sem gasolina ontem. O aquecedor não funciona sem o motor ligado. Hoje ficou muito frio. Os dedos dos pés começaram a doer.”
Olhou novamente para o fogo. “A mãe estava a chorar. Adormeceu a chorar. Não quis acordá-la. Só… vi a tua luz. Vi o fumo da chaminé antes. Só queria lembrar-me.”
“No fim, percebi que a maior riqueza não é ter uma casa, mas abrir a sua porta.” .