Capítulo 1: A Promessa na Feira
O calor de agosto colava a camisa de couro de Eduardo às costas. Era um dia péssimo para uma feira na cidade e ainda pior para uma campanha de doação de brinquedos. Aos 62 anos, o presidente do Motoclube Os Cavaleiros de Ferro detestava algodão-doce, odiava os gritos agudos dos feirantes e, acima de tudo, odiava ser encarado pelos “bons cidadãos” daquela pequena cidade no Alentejo.
Seus 27 homens — os “27 de Ferro”, como o jornal local os chamara certa vez, com certa hesitação — estavam espalhados pelos arredores, seus coletes com patches em contraste gritante com as cores pastel da feira. Não estavam ali por diversão. Estavam ali porque o estatuto do clube exigia: um evento beneficente por trimestre. Desta vez, era a arrecadação de ursinhos de pelúcia em um caixote empoeirado ao lado de uma barraca de adivinhar o peso.
Eduardo, cujo nome verdadeiro (Artur Tavares) não era usado por ninguém além da Autoridade Tributária há trinta anos, encostou-se num quiosque de cachorro-quente, braços cruzados. Seu rosto era um mapa de sol e vento. A barba, mais branca que preta. Era um homem imponente, e sabia disso. Mas hoje, ele apenas se sentia velho.
Dias como esse, rodeado de crianças gritando e famílias perfeitas, faziam a sombra de sua irmã, Joana, pairar mais perto. Era uma lembrança frágil, de tranças e um dente da frente faltando. Ele tinha dezesseis anos na época, já grandalhão, mas não grande o suficiente. Não forte o suficiente para parar o pai. Quando os serviços sociais intervieram, Eduardo já era adulto o bastante para viver sozinho, e Joana… desapareceu. Engolida pelo sistema. Passara décadas tentando encontrá-la, mas ela sumira. Falhara em sua única missão: protegê-la. Os Cavaleiros de Ferro, o clube, sua vida… tudo não passava de um barulhento disfarce para aquele único, silencioso fracasso.
“Com licença.”
Eduardo não se mexeu. Estava acostumado a que as pessoas lhe dessem espaço.
“Com licença, senhor.”
A voz era pequena, clara e vinha de sua altura do joelho. Ele olhou para baixo.
Foi quando a viu. Ela não chorava, como a criança perdida no carrossel. Não ria. Apenas… estava ali. Devia ter uns oito anos, pequena para a idade, com cabelo castanho fino e uma camiseta barata, duas vezes maior que ela.
E um olho roxo.
Não era uma marca fresca, violenta. Era um machucado amarelado, cicatrizando, daqueles que falam de dias, não de horas. Havia marcas antigas nos braços também, levemente no formato de dedos.
O sangue de Eduardo gelou. Não descruzou os braços, mas todo o seu corpo ficou tenso. Já vira aquele olhar antes. No espelho, em sua própria mãe. Em Joana.
A menina não se encolheu sob seu olhar. Fitou o patch de “Presidente” em seu colete.
“O senhor é o chefe?” Ela perguntou, a voz plana, sem qualquer tom infantil.
A voz de Eduardo travou. Ele pigarreou, o som saindo rouco. “Sou.”
Ela acenou com a cabeça, como se confirmasse um fato. Olhou para seu rosto, os olhos — um claro e castanho, o outro inchado e descolorido — procurando algo.
“Meu padrasto me bate,” ela disse, com a mesma frieza. “E na minha mãe também.”
O mundo ao redor de Eduardo desmoronou. A música, os cheiros, o calor — tudo sumiu. Só restou aquela criança, parada nos escombros de sua própria vida, relatando um fato como se falasse do tempo.
Ele quis rugir. Encontrar aquele “padrasto” e quebrar cada osso de suas mãos. Pegar a menina, jogá-la em sua moto e fugir até a fronteira desaparecer.
Mas não podia. Tinha 62, não 22. E aquele não era um problema que se resolvia com uma corrente.
Finalmente, descruzou os braços. Agachou-se, um processo lento e doloroso para seus joelhos velhos. O couro rangia. Agora, estava no nível dos olhos dela. Viu sua irmã. Viu Joana, escondida no armário, implorando para que ele ficasse quieto.
“Qual é o teu nome, miúda?” Sua voz saiu mais áspera do que pretendia.
“Leonor.”
“Tá bem, Leonor.” Não sabia o que dizer. Era o presidente de um clube, líder de homens duros. Negociava com rivais e encarava a polícia. Não tinha ideia do que fazer ali.
Então, Leonor fez a pergunta que destruiu seu mundo.
“O senhor quer ser meu pai?”
Não era um pedido. Era uma proposta. Um apelo desesperado de quem já não tinha saída. O coração de Eduardo, um pedaço de couro velho e cicatrizado que julgara morto há décadas, rachou. Viu tudo naquele momento — o futuro que poderia dar a ela e o passado do qual não escapara.
Não podia ser seu pai. Mas podia ser outra coisa.
“Não, miúda,” disse, a voz grossa. “Não posso ser teu pai.”
Viu o lampejo de esperança em seus olhos desaparecer, e isso quase o matou.
“Mas,” continuou rápido, “posso ser teu amigo. Um amigo que… impede os outros de serem maus.”
Ela apenas olhou.
“Ele… ele me assusta,” sussurrou, a primeira nota de medo infantil em sua voz. “Assusta minha mãe. Diz que é importante. Que ninguém vai acreditar em mim.”
“Eu acredito,” Eduardo disse, e a convicção em sua própria voz o surpreendeu. Meteu a mão no bolso do colete, passou dos cigarros e tirou um caderno de capa dura e uma caneta. Arrancou uma página em branco.
“Isto é o meu número,” disse, rabiscando. “O meu número pessoal. Não é o do clube. É o meu.” Entregou-lhe o pedaço de papel, que mais parecia um guardanapo. “Se ele te assustar de novo. Se alguma vez te sentires em perigo… liga para este número. Dia ou noite. Não importa. Tu ligas. Nós vamos.”
Enfatizou o “nós”. Olhou por cima do ombro. Dois de seus homens, “Padre” e “Touro”, haviam notado a conversa e se aproximado, parados como duas gárgulas de couro.
Leonor olhou para o guardanapo. Para Padre e Touro. Depois, de volta para Eduardo.
Pela primeira vez, sua expressão mudou. Um pequeno, quase imperceptível aceno. Dobrou o guardanapo com o cuidado de quem manuseia um diamante e enfiou-o no bolso do short.
“LEONOR! Leonor, onde estás?”
Uma voz feminina, afiada pelo pânico. Uma mulher magra e esgotada corria em sua direção, os olhos arregalados. Atrás dela, um homem de camisa polo e calças de linho andava com determinação. Era bonito, carismático e sorridente. Parecia candidato a algo.
“Leonor, querida, nunca mais… meu Deus,” a mulher parou, a mão voando à boca ao ver Eduardo e seus homens.
“Aí estás tu!” o homem disse, o sorriso imutável. Pôs uma mão possessiva no ombro de Leonor. “Preocupaste-nos, anjinho. O que estás a fazer a falar com… estes senhores?”
O tom de desdém na voz era uma faca. Eduardo ergueu-se lentamente. Era uma cabeça mais alto que o homem.
“Eduardo sorriu ao ver Leonor subir ao palco com seu ursinho de pelúcia, sabendo que, finalmente, depois de uma vida inteira, ele mantivera sua promessa.