Quarenta e sete motociclistas sequestraram 22 crianças de um lar de acolhimento e levaram-nas através de fronteiras distritais antes que as autoridades os conseguissem parar. Foi isso que as notícias disseram.
Foi isso que a operadora da PSP gritou ao enviar seis viaturas atrás de nós. Foi isso que a diretora do lar berrou ao telefone quando percebeu que as crianças tinham desaparecido.
Mas não foi isso que realmente aconteceu.
Chamo-me Ricardo Mendes. Sou assistente social em Lisboa e trabalho no sistema de acolhimento familiar há dezanove anos. Já vi todo o tipo de tragédias que se possa imaginar.
Mas nada me preparou para o que encontrei no Lar Futuro Brilhante naquele outubro.
Vinte e duas crianças. Dos seis aos dezassete anos. Todas no sistema. Todas esquecidas. E todas prestes a passar mais um Natal num sítio com ratazanas na cozinha e bolor nas paredes. O Estado devia tê-lo encerrado. “Devia” há três anos.
Há oito meses que tentava realojar estas crianças em melhores condições. Ninguém as queria. Muitos problemas de comportamento. Muitas necessidades médicas. Trauma demais. Custo elevado. O sistema desistiu delas.
Por isso, quando o meu amigo Márcio me ligou numa quinta-feira de novembro, estava desesperado o suficiente para ouvir. Márcio andava com o Moto Clube dos Veteranos do Ultramar. Cinquenta homens. Todos militares. Todos condecorados. Todos à procura de um propósito depois de voltarem para casa.
“Irmão, ouvi falar da tua situação com essas crianças. O clube quer ajudar.” A voz do Márcio era séria. “O que achas de as levar para passar uma semana na Serra da Estrela?”
Ri-me. Um riso amargo. “Márcio, estas crianças nem têm autorização para ir ao cinema. O Estado nunca aprovaria uma viagem dessas.”
“Então não pedimos autorização,” disse o Márcio. “Pedimos perdão depois.”
Foi assim que começou. A coisa mais bonita, ilegal e louca que já fiz. Márcio e o clube planearam tudo. Alugaram um parque de campismo no Gerês que ficava vazio no inverno. Contactaram médicos, terapeutas e conselheiros que se ofereceram para ajudar. Juntaram donativos. Brinquedos. Roupa. Comida. Atividades.
E depois foram buscar as crianças.
18 de novembro. Sábado de manhã. 6h00. Quarenta e sete motociclistas chegaram ao Lar Futuro Brilhante com as suas motas. O som era incrível. Como um trovão. Como um exército a chegar. As crianças acordaram e correram para as janelas. Algumas gritaram. Outras choraram. Nunca tinham visto nada igual.
Encontrei-me com o presidente do clube, um homem chamado Joaquim, à porta. Setenta anos. Barba branca. Peito cheio de medalhas. Entregou-me uma pasta. “Aqui estão os termos de responsabilidade. Autorizações médicas. Contactos de emergência. Fizemos isto da forma mais legal possível.”
A diretora do lar, Patrícia, desceu as escadas de roupão. “O que está a acontecer? Quem são estas pessoas?” Respirei fundo. “Patrícia, estes senhores vão levar as crianças num passeio de campismo. Uma semana. Tudo pago. Supervisão total.”
O rosto dela ficou roxo. “Absolutamente não! Não podem simplesmente levar crianças do Estado para outro distrito! Vou chamar a polícia!”
“Chame,” disse o Joaquim calmamente. “Mas enquanto o faz, vamos perguntar às crianças se querem ir ver a Serra da Estrela. E se disserem que sim, levamo-las. Pode tratar da papelada depois.”
Reunimos as vinte e duas crianças na sala comum. Desde a pequena Leonor, de seis anos, com o seu coelho de peluche, até ao Rúben, de dezassete, que já tinha passado por catorze instituições.
Márcio avançou. “Chamo-me Márcio. Estes são os meus irmãos. Somos veteranos. Andamos de mota. E queremos levar-vos numa aventura.”
A Leonor levantou a mão. “Vão magoar-nos?” O meu coração partiu-se. Era o que estas crianças tinham aprendido. Adultos estranhos significam perigo.
Joaquim ajoelhou-se à altura dela. “Não, querida. Vamos proteger-te. Vamos levar-te a acampar. Mostrar-te a Serra da Estrela. Andar a cavalo. Ensinar-te a pescar. Dar-te a melhor semana da tua vida. Mas só se quiseres.”
“E se dissermos que não?” perguntou o Rúben, desconfiado. Tinha sido magoado demasiadas vezes.
“Então vamos embora e nunca mais nos vês,” respondeu Joaquim. “Esta é a vossa escolha. Não nossa. Não do Estado. Vossa.”
As crianças olharam umas para as outras. Depois a Matilde, de doze anos, levantou-se. “Eu quero ir. Nunca fui a lado nenhum.” Uma a uma, as outras concordaram. Todas as vinte e duas. Até o Rúben.
A Patrícia gritava ao telefone: “Estão a raptar crianças do Estado! Mandem a polícia já!” Mas já estávamos em movimento. Cada motociclista ficou responsável por uma criança. Algumas foram em carrinhas que o clube trouxera. Os mais novos tiveram lugares especiais. Todos tinham capacetes. Todos estavam protegidos. Em vinte minutos, estávamos a sair.
O comboio era enorme. Quarenta e sete motas. Sete carrinhas. Vinte e duas crianças. E eu, de garupa com o Márcio, a rezar para não ter acabado de destruir a minha carreira.
A polícia alcançou-nos quinze quilómetros depois. Seis viaturas. Luzes a piscar. Pararam-nos na autoestrada.
O agente principal abordou o Joaquim. “Senhor, recebemos relatos de raptos de menores. Precisa de levar estas crianças de volta imediatamente.” Joaquim entregou-lhe a pasta. “Agente, aqui estão as autorizações assinadas pelo seu tutor legal.” Apontou para mim. “O Sr. Mendes é assistente social com autoridade legal. Temos informações médicas, contactos de emergência e itinerário completo. Isto é uma visita de estudo supervisionada.”
O agente olhou para os papéis. Olhou para as crianças. Estas estavam a sorrir. Animadas. Mais vivas do que há meses.
“Isto é altamente irregular,” disse o agente. “Tenho de confirmar.”
Enquanto ele ligava, o Tiago, de dez anos, aproximou-se. “Por favor, não nos mande voltar. Aquele sítio é mau. A comida tem bichos. Os chuveiros não funcionam. Nunca saímos de lá.” Começou a chorar. “Por favor. Só queremos uma semana boa.”
O agente olhou para ele, para os motociclistas, para mim. “Quanto tempo?” perguntou ao Joaquim.
“Uma semana. Voltamos no sábado. Seguros. Felizes. Alimentados. Com memórias para a vida.”
O agente fechou a pasta. “Nunca vos vi. Mas se algo acontecer a estas crianças, vou atrás de vocês. Entendido?”
Joaquim fez uma continência. “Sim, senhor. Palavra de militar.”
Os sete dias seguintes foram mágicos. Pura magia. Chegámos ao Gerês ao final do dia. Os motociclistas tinham decorado tudo. Luzes de Natal. Cartazes de boas-vindas. Cada criança teve o seu quarto com camas e lençóis limpos. O refeitório tinha um banquete à espera.
Naquela noite, a Leonor sentou-se no colo do Joaquim durante o jantar. “Isto é o céu?” sussurrou.
Os olhos dele encheram-se de lágrimas. “Não, princesa. Mas é quase.”
A semana foi cheia.No final, as crianças voltaram para casa com sorrisos que nunca mais se apagaram, e o mundo percebeu que às vezes os herois usam coletes de couro e não capas.