200 Motociclistas Cercaram um Orfanato para Impedir Despejo na Véspera de Natal

5 min de leitura

Noite de Natal no Lar Santa Maria: Quando 200 motociclistas cercaram o orfanato

Chamo-me Juiz Eduardo Lopes, e estou na magistratura há vinte e dois anos. Tomei milhares de decisões, assinei ordens sem conta. Destruí famílias e salvei outras. Mas nada—absolutamente nada—me preparou para o que aconteceu naquela noite de dezembro.

Estava no meu carro, do outro lado da rua do Lar Santa Maria, a ver a PSP preparar-se para executar a ordem de despejo que eu assinara três dias antes. O banco executara a hipoteca. O lar tinha noventa dias para desocupar. Protelaram seis meses com recursos, mas a lei era a lei.

Vinte e três crianças, dos quatro aos dezassete anos, estavam prestes a ser separadas e enviadas para instituições diferentes por todo o país. Na véspera de Natal.

Não devia estar ali. Juízes não costumam testemunhar as suas ordens a serem cumpridas. Mas algo me atraiu para aquela rua. Talvez culpa. Talvez curiosidade mórbida. Ou talvez só precisasse de ver, pela primeira vez, as consequências das minhas decisões.

Foi então que os ouvi. O ronco começou baixo, como um trovão ao longe. Depois cresceu. E cresceu. E cresceu.

Motas. Dezenas. Depois centenas.

Vinham de todos os lados, faróis cortando a escuridão de dezembro. Cercaram o orfanato num círculo imenso, motores a rugir, criando uma muralha de aço e couro entre os agentes e a porta da frente.

O Comissário Vasco Silva, um homem que conhecia há quinze anos, ficou parado com a notificação de despejo na mão, a olhar para o mar de motociclistas. Os seus seis agentes pareciam aterrados.

Então, os motores calaram-se. Todos ao mesmo tempo. O silêncio foi ensurdecedor.

Um homem desceu da mota e aproximou-se do comissário. Era gigante—quase dois metros, barba grisalha até ao peito, colete de couro cheio de insignias militares.

“Boa noite, Comissário,” disse com calma. “Chamo-me Tiago Alves, presidente dos Guardiões MC. Viemos falar sobre este despejo.”

“Não há nada a falar,” respondeu Vasco, embora a voz lhe tremesse. “Tenho uma ordem judicial assinada pelo Juiz Lopes. Estas crianças têm de sair imediatamente.”

Tiago acenou lentamente. “Compreendo que o senhor tenha um trabalho a fazer. Mas compreende o que está prestes a fazer? É dia 24 de dezembro. Amanhã é Natal. Vai traumatizar vinte e três crianças que já perderam as famílias?”

“A lei é a lei.”

“Às vezes, a lei está errada.” Tiago olhou para os seus irmãos. “Não nos mexemos. Quer despejar estas crianças? Terá de passar por nós.”

Afundei-me no banco do carro. A situação escalava rapidamente. Um pedido de reforços e aquilo viraria um motim.

Mas o Comissário Vasco não chamou reforços. Ficou ali, com o papel a tremer-lhe na mão, a olhar para o orfanato por detrás da muralha de motociclistas.

A Irmã Margarida, a freira de setenta anos que dirigia o Lar Santa Maria, saiu para o alpendre. “Por favor, sem violência. As crianças estão a ver pelas janelas.”

Olhei para cima. Vinte e três rostos colados aos vidros. Olhos arregalados. Alguns a chorar. Os mais velhos a segurar os mais novos.

“Irmã,” chamou Tiago. “Não viemos para violência. Viemos porque crianças não deviam ficar sem casa no Natal.”

“Sr. Alves,” disse Vasco. “Respeito o que está a tentar fazer. Mas se não se dispersarem, vou ter de prender todos por obstrução.”

Tiago riu-se. Não de forma gozona. Triste. “Vasco—posso chamar-lhe Vasco? Vai prender duzentos veteranos três dias antes do Natal por protegerem órfãos? Como é que isso vai ficar no telejornal?”

Foi aí que reparei nas carrinhas da comunicação social a chegarem. Três. Câmaras já a filmar.

O telemóvel tocou. O Presidente da Câmara. Deixei ir para o correio de voz.

Tocou outra vez. O diretor do banco. Ignorei.

À terceira, era a minha mulher. Atendi.

“Eduardo, estás a ver as notícias? Há duzentos motociclistas à volta do Lar Santa Maria! Estão a proteger aqueles órfãos que mandaste despejar!”

“Eu não mandei despejar ninguém. Foi o banco. Só assinei a ordem.”

“Eduardo Lopes, desce lá agora e resolve isto.”

“Não há nada a fazer. A ordem está assinada.”

“Então anula-a!”

“Não é assim que a lei funciona, Helena.”

Desligou-me na cara. Trinta e dois anos de casamento, nunca me tinha feito isso.

No orfanato, chegavam mais motas. A multidão crescia. Alguém montou colunas e pôs música natalícia. “Noite Feliz” ecoava no ar frio.

Uma repórter aproximou-se de Tiago. “Sr. Alves, porque está aqui esta noite?”

Ele olhou diretamente para a câmara. “Porque alguém tem de defender quem não pode defender-se. O banco que está a executar este orfanato foi salvo com dinheiro dos contribuintes em 2008. Eles tiveram uma segunda chance. Mas não a dão a estas crianças?”

“E a lei?”

“Às vezes, a lei protege os poderosos em vez dos indefesos. Quando isso acontece, pessoas decentes têm de dizer não. Não esta noite. Não a crianças. Não no Natal.”

A multidão explodiu em aplausos. Mais motociclistas chegaram. Alguns trouxeram chocolate quente para os agentes, que não sabiam se deviam aceitar.

Então, aconteceu algo extraordinário.

Pessoas normais começaram a aparecer. Famílias do bairro. Lojistas. Professores. Juntaram-se aos motociclistas. Em uma hora, eram quinhentas pessoas a cercar o Lar Santa Maria.

O Comissário Vasco estava ao telemóvel, a andar de um lado para o outro. Eu sabia com quem falava. O Presidente da Câmara. Talvez o Ministro da Administração Interna. Superiores a dizer-lhe para resolver aquilo sem virar um desastre.

Às 21h, Vasco aproximou-se de Tiago outra vez. “Sr. Alves, tenho um trabalho a fazer.”

“E nós temos crianças a proteger.”

“O que quer de mim?”

“Dê-nos até à meia-noite. Três horas. Deixe-nos fazer umas chamadas. Tentar arranjar uma solução.”

Vasco olhou para os agentes. Para a multidão. Para as câmaras. “Três horas. Depois disso, chamo a GNR.”

Tiago acenou e puxou do telemóvel. Em minutos, dezenas de motociclistas estavam a fazer chamadas. Ouvi fragmentos:

“Preciso de um advogado para um recurso urgente…” “Alguém conhece alguém no banco para travar isto…” “Arranjem-me o número pessoal do Ministro…”

O telemóvel tocou outra vez. Desta vez, era a Juíza Conselheira Isabel Costa, minha superior.

“Eduardo, que raio se passa aí?”

“Não estou aí. Estou em casa.” A mentira saiu fácil.

Leave a Comment